A advogada que aprendeu a se defender

Uma carta sobre meus 14 anos de profissão, o peso da “mansidão” mal compreendida e o dia em que decidi, finalmente, defender a minha mais importante cliente

No último dia 14 de dezembro, celebramos o Dia da Mulher Advogada, essa profissão linda que a vida, com toda a sua sabedoria, me presenteou.

Não vou ser hipócrita. Embora sempre tenha tido um senso de justiça aguçado, no início escolhi o Direito por razões bem pragmáticas: bons salários, estabilidade e a promessa de um cargo público que me permitiria viver com tranquilidade.

Lembro exatamente da conversa que selou essa escolha.

Eu cursava Engenharia Ambiental. Estávamos em greve havia meses e eu me sentia perdida, dividida entre voltar a estudar para Medicina ou focar em concursos públicos.

Era verão. As mangas coloriam as árvores do quintal e espalhavam um aroma doce por toda a casa. Estávamos sentados à mesa da cozinha. Meu pai pegava os potes de cereais integrais — chia, linhaça e aveia —quando aproximei o celular de seus olhos e disse:

— Pai, olha quanto pagam esses concursos aqui para quem é formado em Direito! É muito dinheiro!

Ele concordou, animado:
— Caramba, Lu, dá pra ficar bem na fita!

— Pois é, acho que vou fazer Direito para concurso público. Sou boa de prova, amo ler… acho que vou me dar bem.

Minha mãe, em pé, completou:
— Filha, faz isso. É a melhor coisa. Foca em concurso! Mulher tem que ser concursada para ter tempo de cuidar dos filhos.

Meu marido — à época, namorado— com um pote de castanhas na mão, arrematou:
— E a Lu passa. Sem nada, ela já passou no concurso da polícia.

Meu pai concluiu:
— Então faz, filha. Acredita em você! O que você precisa para começar?

Naquela conversa simples, minhas bases foram lançadas no mar jurídico.

Desde então, se passaram 19 anos vivendo o Direito e do Direito. No dia 14 de novembro, completei 14 anos desde que recebi minha carteira da OAB.

Posso dizer, com orgulho, que nunca perdi uma causa. Mas há uma verdade importante por trás disso: nunca aceitei defender algo ou alguém que não fosse justo. Mais do que vencedora, a verdade é que sempre escolhi o lado certo.

Ainda assim, ironicamente, mesmo lutando contra injustiças todos os dias na vida profissional, muitas vezes falhei comigo mesma na esfera pessoal.

Eu não me defendia.

Permitia que pessoas passassem por cima de mim. Aceitei prejuízos em silêncio. O orgulho de dizer “pessoalmente, nunca processei ninguém” escondia algo mais profundo: o medo de me impor. Medo de errar, de não ser aceita, de desagradar.

Por muito tempo, vivi sem internalizar um fato simples: nem Jesus, santo e perfeito, passou por este mundo sem ser perseguido e odiado.
Que ideia tola a minha tentar controlar a opinião alheia.

Defender o outro sempre me pareceu mais fácil do que defender a mim mesma. Defender a gente exige confronto interno, limites e coragem. E talvez meu maior dilema sempre tenha sido este:

É cristão se defender? Ou devo sempre perdoar, dar a outra face e deixar ir?


A confusão da ignorância vs. a Verdade que liberta

Não vim de uma família que lia a Bíblia. Mas, com o nascimento do meu filho, senti a necessidade de conhecer Jesus com meus próprios olhos, e não apenas pelo que me disseram.

Percebi que vivi por anos de interpretações fragmentadas da Palavra. E fragmentos são como retalhos: quando mal costurados, perdem o sentido original e distorcem a essência do todo.

Carreguei por anos a ideia de que deveria apenas perdoar, “dar a outra face” e aceitar. Repreender o mal, para mim, parecia incompatível com um Deus manso e amoroso. Eu conhecia o Seu amor, mas não O conhecia por inteiro. Não conhecia sua justiça, sua ordem, sua firmeza.

Ler as histórias de Jesus com meus próprios olhos foi uma virada de chave.

Aprendi algo libertador: se alguém pratica um mal injusto contra você, repreenda-o.

Conhecer a vida e as palavras de Jesus me libertou da obrigação de continuar aceitando o inaceitável.


A primeira ação aos 14 anos de carreira

Pela primeira vez em 14 anos de profissão, eu agi.

Pela primeira vez, eu — advogada com mestrados no Brasil e fora, artigos publicados e palestras dadas — atuei em minha própria defesa.

Ao olhar para trás, vejo quanto tempo esperei. Vejo que, se tivesse tomado providências antes, teria evitado muitos problemas.

Aprendi que fé não é apenas mansidão.
Fé também é ordem.

É dizer: “Isso é injusto. Não faça isso.”
É impor limites justos e confiar que Deus está na retaguarda daqueles que agem com justiça.

Lembrei, então, daquela frase de Martin Luther King:

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”

O silêncio, muitas vezes, permite que o fogo se alastre. Em certos momentos, a repreensão é a água necessária para cessar o incêndio e evitar prejuízos maiores para todos.


Raízes comuns

Quantas amizades e quantos casamentos não se perdem porque as pessoas não falam o que sentem, até que a tolerância ao que machuca se torne insustentável?

Conflitos fazem parte da vida. Desagradar faz parte da nossa condição humana, imperfeita e real. Lidar com diferenças nos faz crescer, amadurecer e aprofundar relações.

Errar é humano e vai acontecer. Mas isso não pode impedir a gente de agir, de fazer o que a gente acredita que é o certo.

É preciso coragem para repreender com educação, dentro da lei, e se impor diante do injusto.

E se algo está na sua vida — bom ou ruim — é porque há ali uma missão e um aprendizado. Muitas vezes, esse aprendizado exige um não. Exige ação, exige coragem e humildade para enxergar falhas e assumir responsabilidades.

Percebi que muitos problemas diferentes que enfrento têm raízes comuns. Eu não tinha apenas dificuldade de me defender: tinha dificuldade de pedir, orientar, impor limites, desagradar e dizer não. Esse conjunto de fatores revela o quanto ainda tenho a trabalhar internamente. E essas falhas me afastaram, por muito tempo, não apenas da autodefesa, mas da minha melhor versão.

Notei também que muito da minha dificuldade de repreender vinha de uma imagem distorcida de Jesus. Eu o via como um velhinho manso que apenas dava a outra face e nada fazia diante das injustiças.

Mas, ao ler a Bíblia com os meus próprios olhos, vi outra coisa: Jesus era bom, sim, mas firme também. Corrigia, orientava, dizia não, se impunha com justiça e autoridade. Suas palavras eram, muitas vezes, de amor; outras, de correção.

Aprendi que dizer não é arrancar ervas daninhas antes que tomem conta é a maneira certa de cuidar do jardim belo. Não há crescimento sem limites claros.

Dizer não, corrigir e orientar fazem parte de liderar, crescer e ajudar o outro a crescer também.


Um novo ciclo ainda melhor

Hoje, aos 14 anos de carteira, celebro a coragem de aprender a me defender e a orientar com firmeza e respeito. De dizer o que é correto, mesmo que isso desagrade.

Crescer exige pessoas, comunicação clara, limites e, muitas vezes, um não.

Quem não sabe dizer o que precisa não sabe lidar com pessoas. Quem não se impõe, será sempre um pescador solitário sobrecarregado, frustrado numa jangada. Pode ver o mar cheio de peixes e sonhar com prosperidade, mas remará sozinho, exausto, enquanto a abundância permanece distante. Sem delegar, sem se posicionar, nunca construirá o navio capaz de navegar até o lugar dos seus sonhos.

Sou grata por essa profissão que me ensina a lutar pela justiça. Sou grata a Deus por Sua verdade e por estar ao meu lado nas situações difíceis que me ensinaram a agir e a superar minhas falhas. Esse amadurecimento era uma peça importante que faltava para o meu crescimento pessoal e profissional.

Afinal, comecei a advogar para a cliente mais importante da minha vida: eu mesma.


Espero que este texto tenha aberto em você um espaço de coragem. Que te ajude a arrancar as ervas daninhas necessárias para que seu jardim floresça ainda mais forte e belo neste ano.

Se você quiser compartilhar sua história comigo, vou adorar te ouvir. E se preferir apenas guardar essa reflexão para si, também está tudo bem.

Eu te desejo uma semana de clareza e coragem.

Com amor,
Luana