Você não é um erro
Luana Ramos Sampaio
Fechei a porta apressada.
Enquanto me organizava no banco, Thiago acelerou.
Virei para trás e recolhi a garrafinha de água que meu filho tinha acabado de deixar no banco de trás. Mãe já vê o problema antes que vire aquela bagunça.
Voltei para o lugar, puxei o cinto, peguei a bolsa que havia colocado embaixo do banco com uma intenção definida.
Abri o zíper, puxei o celular e fui direto para as mensagens.
_Caramba!
Falei arregalando os olhos! Mensagem do trabalho!
Abri e vi um vídeo com uma doce mensagem.
Ufa! Pensei.
_Luana, vi esse vídeo e lembrei de você. Esse médico tem uns conteúdos legais, tomara que você goste!
Agora mais tranquila, cliquei no triângulo e a imagem abriu. Mal sabia eu que aquele vídeo seria uma ponte a memórias que nem eu mesma lembrava que guardava dentro de mim.
Na tela um homem de cabelos pretos apareceu falando vagarosamente sobre sua experiência pessoal e como ele havia descoberto o seu Transtorno do Déficit de Atenção depois de adulto. No meio de suas palavras, algumas pesaram fundo nos meus ouvidos:
Cérebro avariado? Problema?
Meu Deus!
Aquilo soou como se aquele homem dissesse que meu cérebro tinha um problema que deveria ser consertado ou que não tinha mais jeito. Era avariado de nascença.
Algo como: você tem um cérebro que deveria funcionar assim e não funciona.
E por um segundo parece que aquilo ativou um botão de pânico em mim. Eu vi diversas cenas em que eu ouvi versões semelhantes a esta.
Quantas vezes vi no olhar de alguém a pergunta: por que você não consegue simplesmente... ser normal?
A cabeça ferveu.
Fechei o vídeo. Fechei os olhos.
Não estava com raiva do médico. Mas aquelas palavras tinham acordado em mim algo que eu precisava olhar com cuidado.
Tentei. Mas não consegui voltar para tentar escutar o restante.
Achei tão ofensivo, tão inadequado.
O resto da mensagem poderia até ser positivo, mas a premissa de partida me encheu a cabeça de lembranças vivas, os olhos de lágrimas e o coração de um sentimento de inadequação.
Segurei o meu ponto de ancoragem e sussurrei:
_Eu me amo do jeitinho que sou.
Aquele momento, não era sobre o médico, era sobre uma questão muito mais profunda:
quem define o valor daquilo que somos?
Por mais que me incomodasse ouvir aquela história de cérebro avariado, eu usei os recursos que tinha para superar e voltar.
Mas quantos ainda não venceram essa travessia? Quantos se deixam naufragar por vozes externas?
Diariamente, as pessoas me perguntam sobre como é viver com TDAH e AH.
Eu sempre respondo: Eu não vivo com, eu sou. Essa meia dúzia de letras não definem o que eu sou mas fazem parte do que sou. Eu amo ser quem sou.
Fiquei curiosa e fui olhar o perfil do médico no Instagram.
Nossa! Ele tem milhares de seguidores.
Então o coração acelerou...
Meu Deus! Isso chega a muitas pessoas e chega com a autoridade de um CRM por trás!
Não sei se é porque eu convivo com o transtorno do déficit de atenção e com altas habilidades desde nova, mas eu não vejo isso como um problema. Meu cérebro é qualquer coisa menos avariado.
Eu acho o meu cérebro absolutamente incrível!
Sou muito feliz com o cérebro que tenho. Sou muito grata por ser quem sou.
É engraçado que, trabalhando com desenvolvimento estratégico de pessoas, eu percebo que, nesse mundo de redes sociais e comparações, muitas pessoas estão perdidas porque não aprenderam a se amar como são. Geralmente, não se aceitam e perderam ou se desconectaram do seu sal.
Eu já vi e vivi muitas vezes essa história comigo e com os meus clientes.
Então, me veio à mente o rosto da Flavinha. Lembrei do trabalho que fizemos na Mentoria. Recentemente, Flavinha, que também é minha amiga, foi aprovada com nota máxima em seu Doutorado em Direito. Porém, quando iniciamos nosso processo, o contexto era bem diferente.
_Amiga, eu estou perdida. Não sei por onde começar. Falaram tanta coisa na minha banca… eu não sei o que fazer.
_Flavinha, você não está sozinha. Vou te ajudar. Eu te conheço. Escreve o que eu estou dizendo você não só vai entregar como a sua tese vai ser um sucesso.
_Amiga, você tem noção que o que eu quero falar é contra tudo e todos da minha área?
_ Flavinha, eu entendo. Mas, pensa comigo: se for para você repetir o que todo mundo já fala, por que você faria um Doutorado?
Depois de uns segundos ela continuou.
_Tem outra coisa. Eu sou muito objetiva e isso é um defeito para quem faz doutorado.
_Flavinha, eu acabei de estudar profundamente escrita jurídica nos Estados Unidos, e toda tese tem que ser objetiva, específica e profunda. Então, ser objetiva já é uma vantagem por si só e te coloca na frente dos seus colegas.
Aqui preciso ser sincera e abrir os bastidores. Flavinha é excelente. A tese em si nunca foi o verdadeiro desafio.
O principal ponto em jogo era o olhar dela sobre si mesma, o autovalor.
E, ao longo do caminho, mais do que ajustar capítulos, organizar ideias ou revisar argumentos…
o que a gente trabalhou foi autovalor, autoconfiança.
Graças a Deus, o veredicto mostrou que nosso trabalho funcionou. Na voz do Presidente da banca ouvimos:
_ Que você, Flávia, continue sendo essa pesquisadora de coragem para colocar o dedo na ferida e objetividade para tratar e exaurir a pesquisa com técnica e sem se perder.
Não aguentei... me derreti em lágrimas e orgulho.
Naquele momento lembrei da minha mentora, Leila, no primeiro dia em que conversamos:
_Luana, é assim que se pronuncia corretamente o seu nome?
_Na verdade não. Mas pode falar assim ou dessa outra forma. Do jeito que você quiser.
_Nada disso, Luana. Eu te respeito e eu quero falar o seu nome corretamente. Você não é qualquer uma, você é alguém de respeito e seu nome precisa ser respeitado também. Me ensine a falar seu nome corretamente, por favor.
Depois da aula, ela me chamou para uma conversa.
_ Luana, existem muitas pessoas que têm muito menos conhecimento que você…
e se portam como se tivessem muito mais do que têm.
Você, ao contrário…
se porta como se tivesse muito menos do que tem.
Você é inteligentíssima.
Você é brilhante.
Você poderia estar aqui dando aula como eu estou.
Mas você precisa se olhar como eu te olho agora.
Você precisa desenvolver a sua autoimagem.
Se você não consegue ver a sua grandeza…
dificilmente alguém vai ver.
Leila segurou minha mão e disse com firmeza maternal:
Isso começa pelo seu nome falou apertando os meus dedos.
Não deixe ninguém falar seu nome errado, não aceite menos do que você merece. Exija que as pessoas falem seu nome corretamente e te tratem com respeito. Tenha orgulho de quem você é, de onde veio e do que faz completou.
Aquelas palavras daquela mulher e profissional africana tão amorosa e brilhante despertaram um aprendizado que levo comigo, que eu passei para a Flávia e que agora compartilho com você:
Valoriza quem você é, o que você faz e o que você tem. Aquilo que te faz diferente é aquilo que te faz único e especial.
Foi exatamente essa frase que me veio à mente quando estava no carro e ouvi aquelas pesadas palavras do médico no vídeo que, com a melhor das intenções, a minha querida colega me enviou.
Eu não sou hipócrita. Não vou pintar o mundo de rosas.
O mesmo cérebro com hiperfoco que me faz continuar literalmente obcecada até resolver problemas complexos e difíceis que é o mesmo que não consegue ver outras atividades enquanto não termina a primeira. E facilmente esquece a hora de dormir, de comer, de beber água e até de piscar.
O mesmo cérebro curioso que desvenda enigmas e padrões e aprende tudo com facilidade, também tem dificuldade de escolher uma coisa só para fazer.
O mesmo cérebro que tem uma visão de águia muito além da curva, também esquece tudo que está fora do foco. Isso inclui perceber ou responder as pessoas. Isso inclui se arrumar para sair.
Na prática, isso significa perder a hora, chegar num lugar e um desconhecido bater no ombro e avisar que tem uma etiqueta na blusa pulando para fora. Ou olhar para baixo e perceber que saí de terno e chinelo. Ou passar em frente a um espelho na rua e perceber que a blusa está ao avesso ou as meias estão trocadas. Eu rio. E sigo. E sou.
Claro que existem dois lados da moeda.
Mas aqui, eu não estou falando de escolher moedas que trocamos.
Estou falando de escolher a mim.
Esse é o meu cérebro.
Esse é o meu sal.
Eu jamais trocaria meu cérebro por um típico porque entendi algo especial.
Aquilo que o mundo, muitas vezes, tenta corrigir, ajustar ou encaixar…
é exatamente aquilo que nos torna únicos e especiais.
Não tenho que corrigir um defeito.
Não tenho que deixar de ser quem sou pra caber numa receita que não foi feita para mim.
Há algum tempo escolhi ser inteira e viver a minha receita criativa, humana e absolutamente autoral.
Com a intensidade que me move.
Com a curiosidade que me expande.
Com o foco que me leva longe, mesmo que, às vezes, me faça esquecer todo o resto.
Eu escolho ser eu.
E, talvez…
No fundo, a vida não quer que a gente se conserte.
Ela quer que a gente seja. E que reconheça o próprio valor.
Respirei fundo. Olhei para o celular que estava na minha mão e digitei para minha colega:
_ Obrigada, pelo carinho, por lembrar de mim. Mas, de coração, acho que a visão vai muito além. Não somos avariadas, somos únicas.
Se tivesse que escolher, mil vezes escolheria o meu cérebro engraçado, acelerado, criativo, viajante, curioso. Escolheria o meu sal do jeitinho que é, me escolheria do jeitinho que sou.
Ps.
Gente, eu escrevi essa carta para mim.
Para os meus.
E para você… que é, ou ama alguém, neurodiverso.
Não deixa o mundo te convencer de que você é um erro.
Ou de que quem você ama precisa ser consertado.
Existe um outro olhar.
E, como Jesus nos ensinou em Mateus 6:22,
“os olhos são a luz do corpo”.
Leve luz e pureza ao seu olhar…
e você vai ver que tudo começa a se iluminar.
Eu sei que existem dias difíceis.
Eu sei que, às vezes, os ombros cansam com o peso da vida.
E foi pensando nesses momentos que eu criei algo muito especial.
Um lugar de acolhimento.
Um abrigo na tempestade.
Uma bússola para não esquecer quem você é… e o seu porquê.
Uma lembrança viva para te acompanhar todos os dias.
Para te dar força.
Para você não desistir de você.
Nem dos seus sonhos.
Nem daquilo que você é capaz de construir.
Chamei de Plano de Esperança.
No Plano de Esperança, eu vou te ensinar a construir um plano só seu.
Através de aulas rápidas, profundas e práticas,
você vai receber as bases para construir o seu Plano de Esperança.
Um documento feito por você, para você.
Com o melhor que existe em você.
Para você olhar nos dias difíceis.
Para não esquecer o seu porquê.
Para lembrar quem você é quando o mundo te apedrejar.
Para se acolher.
Para se manter firme.
Para seguir no caminho que você escolheu.
Se fizer sentido para você, ele está em promoção de lançamento com um preço super acessível.
Não espere, crie seu plano e realize seu projeto!
Estou te esperando do lado de cá!
https://planodeesperanca.luana.cloud/
Com carinho,
Luana
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