Luana, ontem foi o pior dia da minha vida profissional.
Posso não ter muitas certezas nessa vida. Mas de uma coisa eu tenho absoluta certeza: da excelência com que conduzo o meu trabalho.
Eu ouvi suas palavras arrastadas e senti sua dor no meu âmago.
Minha cliente é uma profissional fantástica, em plena ascensão. E estava destruída.
Enquanto gravava a resposta, pensei na minha própria vida.
Lembrava de uma história que começou quando senti a dor de outra pessoa como se fosse minha.
Na memória via aquele dia quente de sol brilhante e céu azul limpinho.
Eu estava em pé, batendo papo, enquanto olhava as crianças rindo e jogando bola na rua quando, de repente, meus olhos pararam numa figura que destoava totalmente do cenário.
Reparei seus coloridos olhos. Estavam baixos, tristes, sem vida. O azul parecia mais de nuvem em tempestade.
Perguntei:
_ Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
_Oi, Lu. Está tudo bem… é que eu estou valendo mais morto do que vivo.
_Como assim? respondi sem entender.
_ Às vezes eu acho que as pessoas se preocupam mais com o meu dinheiro do que comigo.
Ele me respondeu com aqueles olhos de nuvem em tempestade.
Doeu ver ele assim.
Eu coloquei a mão em seu ombro e disse:
_Eu sinto muito. Não pensa assim. Você é uma pessoa maravilhosa e é muito amado por todos.
_Obrigada, Lu. É que eu nem morri e só falam de dinheiro, de herança. Ninguém se preocupa se estou feliz, se estou bem. Isso está gerando muita briga. É muito estresse.
Ouvir aquela pessoa tão querida, numa situação tão complicada me deixou angustiada.
Fiquei com vontade de chorar junto.
Com os olhos molhados, falei:
_Eu não sei como te ajudar. Eu não advogo mais para ninguém da família. Mas, se precisar de alguma coisa, conte comigo. Não vou te cobrar nada e tudo que eu puder te ajudar para que você tenha paz, pode contar comigo.
Ele estendeu os olhos e falou:
_Obrigada, Lu.
A imagem do meu familiar se despedindo deu espaço a uma cena que aconteceu dias depois daquela conversa.
Meu telefone tocou. Do outro lado ouvi:
_Luana, você pode falar?
_Claro, estou aqui. respondi ao reconhecer a voz.
A promessa que eu tinha feito ao meu familiar retornou para ser cumprida. E eu, de todo coração, fiz o melhor que pude para ajudá-lo. Dei as instruções jurídicas adequadas.
Segui minha vida.
Aquela história tinha ficado para trás, guardada no lugar das coisas resolvidas que a gente faz com amor, sem esperar nada em troca.
Era um dia comum. Eu estava trabalhando, o café ainda quente perfumava minha mesa, quando o telefone começou a vibrar.
Primeiro uma notificação.
Depois outra.
E mais uma.
Não entendi nada.
Abri a primeira mensagem.
Li uma vez. Duas vezes.
Meus olhos se recusavam a acreditar no que tinham à frente.
Uma chuva de agressões sem pé nem cabeça.
Não entendi.
Tirei a conclusão mais lógica: com certeza me confundiram. A pessoa me enviou essa mensagem por engano.
Convencida, respondi:
_Oi, tudo bem com você? Quanto tempo! Eu acho que você mandou para a Luana errada. Fique com Deus.
Então li a segunda mensagem. Pior ainda. A terceira por áudio então... absolutamente ultrajante.
Eram pessoas que eu conhecia. Pessoas ligadas a alguém que eu havia ajudado. E elas estavam absolutamente convictas em me destruir com as palavras mais vis e absurdas que já ouvi.
Meu Deus! Não era engano.
Era um franco ataque! Mas por que isso, Jesus?
Meu chão sumiu.
E vieram mais agressões.
Mais pesadas.
Mais sujas.
No meio do tiroteio de três lados, indaguei:
_ Espera um pouco. Vocês estão falando de mim enquanto advogada. Mas nenhum de vocês é advogado. Vocês têm advogado? Eu não consigo nem entender o que vocês estão falando. Juridicamente, não faz sentido algum.
Então, completei:
_ Vocês estão levantando uma acusação grave contra mim, isso é crime. Então, no mínimo eu preciso entender as razões jurídicas que sustentam essas agressões. Eu não sei quem é o profissional que está acompanhando vocês, mas isso é muito grave.
A resposta foi algo como: você não é nada. Minha advogada é excelente. Você é um lixo.
Eu nunca havia vivido nada nem parecido com isso, profissionalmente. Nada.
Em 14 anos de profissão…
nunca vi nada assim.
Nem nos casos mais difíceis.
Nem nas situações mais tensas.
Aquilo me tirou os pés do chão.
Eu não sou de agredir.
Eu não sou de xingar.
Embora revoltada pela injustiça, pela agressão, só consegui chorar.
Aquelas acusações eram insanas. Totalmente fora da realidade da vida e do direito mesmo.
O pior é que eu já estava vivendo um conflito difícil. Na época, eu importava um remédio do meu filho dos Estados Unidos e a pessoa que traria para mim não poderia trazer. Eu estava desesperada com medo da minha criança ficar sem o remédio dele. Essa situação por si só já me tirava o sono.
Chorei igual criança.
Pela primeira vez minha pressão subiu, foi em 21. Fiquei tonta, vontade de vomitar, câimbras nas extremidades.
Falei com meu marido:
_Thiago, acho que estou infartando.
Tomei um remédio de pressão.
Deitei. Orei.
Juntei as mãos na frente dos olhos fechados e pedi:
_ Deus, me ajuda. Está difícil demais.
Então, abri a bíblia e a mensagem foi certeira:
Isaías 41:10
Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te esforço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça.
Era como se eu ouvisse Ele me dizer:
_Luana, eu te escuto. Isso é injusto. Mas você não está sozinha. Eu estou na sua retaguarda e eu vou te defender.
Agradeci:
_Obrigada, Deus.
Senti como se eu recebesse uma dose de energia direto no coração. Levantei o tronco, e olhei para o armário que estava à minha frente.
Pensei:
Eu não olhei aqui.
Sem entender direito, peguei a escada. Subi e comecei a mexer no alto do armário.
Uma mala?
Abri.
Ali, no cantinho, encontrei a mensagem que Deus queria me dizer.
E ali…no meio da tempestade, estava o remédio do meu filho.
Exatamente o suficiente até que minha amiga chegasse com uma nova remessa.
Caí no choro de novo. Agora de felicidade, de gratidão.
Deus proveu.
Deus sempre proverá.
Dormi confiante.
Poucos dias depois, meu grande advogado apresentou a minha defesa:
Um texto meu foi publicado em um grande veículo. Pessoas que conhecia e que não conhecia me mandaram mensagens me parabenizando pela qualidade do trabalho.
O que poderia estar invisível a alguns… se tornou evidente a todos.
A minha qualidade jurídica era inegável.
Graças à justiça de Deus.
Depois disso, novas portas começaram a se abrir.
Cursos.
Convites.
Oportunidades.
Aquilo que parecia destruição…
foi, na verdade, transição para uma nova fase, muito melhor.
Depois de ver esse filme vivo em minha memória, eu abaixei a cabeça e vi meu celular entre os dedos.
Lembrei da minha cliente, tão fantástica e tão abalada e, finalmente, falei:
_Nossa! Sinto muito por você estar passando por isso. Nessa jornada, muitas vezes enfrentamos injustiças difíceis, problemas que não demos causa, situações que nunca imaginamos e que caem como um vidro se espatifando sobre nós, sobre nossas costas.
_Eu já vivi isso. Dói muito. Mas isso tem um nome, é a resistência.
Quando a gente cresce,
quando a gente se posiciona,
quando a gente começa a viver o que foi chamado para viver…
a resistência aparece.
Eu disse a ela o que aprendi naquele dia com a pressão em 21 e os olhos fechados no escuro:
_ A injustiça faz barulho.
Mas a justiça de Deus não precisa gritar para vencer. Ela põe todo falso ao chão e traz à luz a verdade de maneira inegável.
Você sabe quem você é e o que você faz. Deus também sabe.
Então, fica firme.
Depois da tempestade, o sol volta a brilhar ainda mais forte e belo. O que parece destruição hoje, amanhã você vai reconhecer como travessia.
Minha cliente me mandou um novo áudio. Dessa vez com a voz tranquila.
_Gratidão. Eu creio, Lu. Vai dar certo.
_Amém, respondi.
Naquela noite, deitada na cama, abri a Bíblia e encontrei: Não temas, porque eu sou contigo.
Essas palavras desfizeram o nó no peito e me trouxeram paz.
Eu me senti acolhida, protegida por alguém que já sabia. Por alguém que já estava lá. Mesmo antes das notificações, antes da pressão, antes das lágrimas.
Agora, enquanto escrevo, quero falar com você que me lê. Não sei o que você está enfrentando hoje. Mas sei que Deus está com você. Antes mesmo de você pedir. Antes de você notar. Mesmo sem chão. Ainda que no meio da tempestade, você não está sozinho. Ele também está lá. Confia. A justiça de Deus vai te acolher. Vai te honrar. Ela não falha.
PS: Feliz que você chegou até aqui.
Se essa carta te abraçou, compartilhe com alguém que também precisa dessa mensagem.
Eu te espero na próxima semana para mais uma Carta.
Com amor,
Luana
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