Já passava da meia noite e não conseguia pregar os olhos. Me via numa encruzilhada na qual os caminhos eram todos cheios de uma névoa que me cegava.
Por mais que refletisse, não conseguia enxergar o melhor caminho.
Juntei as mãos, abaixei a testa e pedi:
_Deus, olha para mim. Estou muito cansada. Preciso de paz. Me ajuda a encontrar o melhor para a minha família. Sei que tenho defeitos. Mas também sei que tenho um bom coração.
Deus, por favor, me ajuda... fala comigo.
Não demorou muito e minha súplica me conduziu a uma resposta.
Uma memória viva de uns dias atrás.
Estava eu na academia para mais um treino.
20kg de um lado.
20kg do outro.
A barra estava preparada.
Coloquei o headphone, escolhi o podcast.
Play e pronto.
Eu estava posicionada para começar a minha série de agachamentos.
Peguei firme a barra.
Soltei o corpo para alongar… Fechei os olhos enquanto os músculos se esticavam.
— Luana!
Uma interrupção inesperada.
— Ah? — respondi, meio sem entender.
Alguém me chamou.
Abaixei o fone para o pescoço.
Braços esticados, mãos firmes na barra, enquanto alongava a lombar.
Levantei o pescoço, abri os olhos.
Vi a minha imagem no espelho.
“Foi impressão…” pensei.
Mas foi tão real.
Estranho...
Fechei os olhos novamente.
Apertei a pegada.
Agora sim. Pronta.
— Luanaaa!
Dessa vez, com os olhos ainda fechados, uma imagem acendeu na minha mente.
Eu vi Vania.
Estava escuro.
Espera!
Ela estava chorando.
O que houve?
A imagem sumiu como um vendaval.
E veio a voz de dentro do meu coração:
— Manda tal valor para ela.
Como assim? Respondi mentalmente.
Mas eu estou apertada!
E a resposta veio imediata:
— Manda. Não se preocupe. Só manda.
Eu já vivi o suficiente para reconhecer quando essa voz fala.
Quando ela vem… é porque tem que ser.
Respirei fundo.
— Beleza, Deus. É para já!
Abri os olhos.
Larguei a barra.
Peguei o celular.
Transferência feita.
Enviei o comprovante.
Segundos depois:
— Lu… o que é isso?
— Uma transferência, Vania — respondi da maneira mais óbvia e sem racionalidade porque, sendo sincera, nem eu estava entendendo o que eu mesma tinha acabado de fazer.
Mas a vida traria uma resposta que eu viria a saber nos minutos seguintes.
Tentei voltar para a minha vida tridimensional lógica.
Segurei a barra novamente.
E, sem que eu dissesse uma palavra, minha memória me levou a uma história que vivi do outro lado do mundo.
A primavera começava a mostrar sua vida em cores e pássaros cantantes.
O sol aquecia a cidade ainda marcada pelo inverno que se despedira.
As pessoas voltavam a usar roupas leves e coloridas. (Sabe aqueles shorts curtos que os americanos adoram e que eu nunca consegui me acostumar? Então, esses!)
Enquanto a vida brilhava do lado de fora, por dentro, sentia falta do calor do lugar de onde eu vim.
Eu só pensava em voltar ao Brasil.
Mas como?
Eu havia emprestado minha casa para minha irmã.
Era injusto pedir aquilo de volta.
Mesmo assim, comecei a olhar casas para alugar.
Pesquisava, pensava, tentava encontrar uma solução.
Até que, em uma conversa com minha mãe, deixei escapar:
— Eu queria tanto voltar…
E parece que, quando é da vontade de Deus e a gente fala a língua da vida as coisas encontram um caminho, mesmo quando a gente não consegue ver.
Continuei olhando casas.
Comprei as passagens.
A decisão estava tomada.
Mesmo sem ter todas as respostas, eu já estava agindo.
Eu iria voltar.
Eu precisava voltar.
Dias depois, recebi uma ligação inesperada.
_Minha irmã?
_Será que aconteceu alguma coisa de errado?
Atendi.
Ela foi direta:
— Lu, surgiu uma oportunidade única. A prima do Fillipe está saindo de uma casa maravilhosa, do jeito que a gente precisava. A gente vai pra lá. Sua casa está pronta para vocês chegarem.
Sem querer prejudicar a minha irmã, respondi:
— Não precisa, irmã… pode ficar. A gente dá um jeito.
Mas ela insistiu:
— Não, Lu. A casa é perfeita pra gente. Tem piscina para as crianças, escritório pra mim, é perto de tudo. É exatamente o que a gente queria e sem prazo. A gente vai. É o melhor para nós.
E, naquele instante…
tudo se encaixou.
Eu tinha um lugar.
Eu tinha o meu lugar para voltar.
Parece mágica.
Mas não é mágica.
É Deus.
É curioso…
Eu sempre falo que a vida conversa com a gente.
Mas, naquele momento, eu entendi algo ainda maior.
Naquele instante entendi como se fala a língua da vida.
Antes, eu lidava apenas com o que estava diante dos meus olhos.
Com o que eu conseguia controlar.
Mas aquela experiência me despertou para algo novo:
Acreditar antes de ver.
Agir antes de entender.
Confiar na voz do coração… mesmo sem nada de concreto no mundo real.
Na verdade, eu não tinha saída. Entreguei o leme para Deus.
E, enquanto fazia tudo que podia, eu pedia:
— Me ajuda, Deus, a voltar.
E, no meu coração, eu ouvia:
— Tenha certeza. Você vai voltar.
De uma coisa eu tinha certeza: eu fiz a minha parte.
Fiz tudo o que estava ao meu alcance.
E Deus fez a parte dEle.
O impossível.
Melhor do que eu pedi.
Melhor do que eu imaginei.
Ele deu uma casa perfeita para a minha irmã.
E devolveu a minha casa, que é perfeita para mim.
Ali entendi ao sentir no meu coração:
A vida escuta a fé em movimento.
A vida responde à fé que crê e faz.
Agora, mais uma vez, eu vi isso acontecer diante dos meus olhos.
Dessa vez com a Vania.
Minutos depois, ela me mandou uma mensagem, em lágrimas que mal deixavam sua voz sair:
— Lu, eu não estou acreditando. Deus ouviu minhas preces. Não sei nem o que dizer. Eu fiz tudo. Eu fiz de tudo para conseguir esse dinheiro. Só faltava exatamente esse valor que você me mandou e hoje era o último dia. Só isso para eu conseguir quitar minha parcela. Eu já estava quase desistindo. Não sei nem o que dizer. Muito obrigada… eu nem sei como te agradecer.
Um sorriso arqueou meus lábios e respondi com o coração pulsando de alegria:
— Vania… não fui eu. Foi Deus. Eu só ouvi. Agradeça a Ele.
Sem perceber…
eu tinha acabado de presenciar mais um milagre.
Sem perceber…
eu vi, mais uma vez, alguém bater e a porta, que, até então, parecia inexistir, se abrir.
Sem perceber…
eu tive o privilégio de ver Deus agindo no impossível. Melhor, tive o privilégio de fazer parte dos planos dEle mais uma vez.
Ao lembrar dessas experiências, me reconectei com o amor de Deus.
A ansiedade baixou.
O coração, na madrugada escura, se acalentou.
Aquelas memórias me mostraram que fé sem obras é fé morta.
E fé viva…
é fé em ação.
É quando você dá o passo…
antes de ver o caminho inteiro. É quando você ouve o seu coração e faz o seu melhor com o que você tem na mão.
Porque é assim que a vida ouve. É assim que ela responde:
você acredita e se move…
e ela acredita e se move com você.
You move toward.
I move toward.
Então, sem perceber, a vida iluminou o meu caminho.
Eu entendi. Preciso agir com o que tenho.
E, quando parei para pensar, há bastante o que fazer desde já.
Fechei os olhos.
Agradeci.
E, naquela madrugada escura…
o meu coração finalmente descansou em fé e esperança.
Porque eu me senti guiada.
Porque eu entendi
a língua da vida.
E, quando a gente aprende a falar essa língua…
a vida responde.
PS: Fiquei pensando aqui…
Você já viveu algo assim também? Adoraria saber da sua história.
Ah, se essa carta te tocou, se fez sentido pra você, compartilha com alguém que também precisa ouvir essa mensagem.
Eu te espero na próxima carta.
Com amor,
Luana
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