A língua gelada de açaí.

O corpo afundado no sofá.

De repente… um gosto que eu nunca tinha provado.

Naquele momento, veio um filme embalado pela música do Fix You, do Coldplay, a mesma que usei na minha última carta, “Você não é um erro”, e que grudou na minha cabeça de um jeito que não paro de cantar.

A música fala sobre lágrimas,
 sobre luzes que nos guiam de volta para casa.

O som me levou para a estrada escura, onde eu e Thiago estávamos sentados.

Quando abri os olhos… eu já estava dentro do carro.

De lá contemplava o céu recortado por pontos de luz de todos os tamanhos.

Aquela imagem me fazia sentir uma segurança estranha...

Enquanto isso, o vento uivava  em rajada.

Os pingos caíam sobre o carro em batucada.

Sob a lua brilhando entre as nuvens de algodão doce eu presenciava um concerto da natureza que anunciava um ritual de passagem que estava prestes a viver.

— Thiago... Eu sou escritora.

Falei, batendo o punho fechado contra o apoio de braço.

— Amor, eu te conheço. Escrever é seu hobby favorito, não sua profissão. Você é auditora. Pode dizer que é advogada, até professora… mas escritora…

Minhas pupilas dilataram com o disparar do coração quando ouvi aquilo.

BOOM

Um estrondo rasgou o céu em luz do lado de fora.

Enquanto isso, do lado de dentro, apertei os dedos e afirmei:

_Não, Thiago.

Eu sou.

Eu sou escritora.

A estrada molhada parecia subir ao céu quando terminei a última palavra.

A voz tremia. Mas o coração não.

Abri os olhos. Vi as minhas mãos apertadas, entrelaçadas sobre as pernas .

Então, senti um peso sair de mim.

Um peso que carregava há muito tempo.

Dias antes, eu encontrei a Fê, minha amiga de infância.

Depois de tanto tempo sem nos vermos, Fernanda foi logo perguntando:

_Lu, o que você está fazendo da vida?

_Fê, sou escritora.

 Embora isso ainda não seja a minha principal fonte de renda.

_Lu,  eu sempre achei que você se tornaria juíza.

Você sempre foi tão inteligente, tão estudiosa. Para mim era tão óbvio. Por que você não tenta o concurso? Tenho certeza que você passa!

_Fê... eu escuto isso desde a faculdade. Eu sei que sim, se eu e       studar, passo. Mas, sendo muito sincera, isso não é o que pulsa meu coração...

_Lu, mas pensa... você poderia dar mais oportunidades aos seus filhos e ganhar bem para isso.

_Amiga, pode até ser. Mas, hoje, o que faz meus olhos brilharem é a literatura, é escrever.

_ Pensa com carinho, Lu. Eu olho para você e te vejo juíza.

Sorri.

_Está bem, Fê. Obrigada.

Olhei para os olhos da minha amiga e senti as frases do coração subirem à boca.

Porém, antes que terminasse de assistir a cena, o barulho da tempestade me trouxe à cena anterior, de volta ao carro.

Pés curvados para dentro.

Mãos entre os joelhos.

Coluna arqueada.

Coração na boca

e lágrimas grossas lavando a alma.

Levantei a cabeça forte

Apertei meu ponto de ancoragem, e falei:

_Não, Thiago.
 Ninguém me conhece mais do que eu.

Só eu posso dizer o que eu sou.

E eu sou escritora.

Não me importa mais o que vão pensar.

E isso não é algo que a gente escolhe.
 É algo que a gente reconhece.

Antes de qualquer título,
 antes de qualquer cargo,

lá estavam as palavras.

Tudo o que eu faço bem
nasce ali…
numa página em branco.

Quando olho para trás…
e quando olho para frente…

eu me vejo assim:

rodeada dos meus livros…
contando histórias que falam ao coração, que acolhem pessoas, que trazem esperança nos dias difíceis.

Se você for pensar, sou uma boa auditora.

Escrevo peças jurídicas com maestria.

Dou aulas.

Falo em palcos.

Mas tudo isso só existe porque antes…

eu sou alguém que sabe usar palavras.

E isso me deu valor no mundo.

Já não escutava a tempestade do lado de fora quando senti o carro parar. Olhei para frente. A luz vermelha acendeu. Então, olhei para baixo e senti o calor de uma mão forte abraçar as minhas.

Thiago, me olhou ainda sem entender o que aconteceu.

E foi naquele olhar…
 que o frio cessou.

_Lu, é a primeira vez que eu vejo você falar de você com tanta certeza assim. Você tem razão. E eu estou aqui para te apoiar.

Ele levou minha mão ao rosto
 e beijou.

Nós dois nos emocionamos.

A estrada parecia mais clara. A chuva mais leve. E nossos corações batiam no mesmo compasso

Seguimos, de mãos dadas.

Então, de volta ao macio sofá prata e ao docinho açaí. Larguei a colher e vi todas as mensagens lindas que recebi da minha última carta. Vi os rostos, os áudios emocionados.. Pela primeira vez percebi que a minha escrita não só curava a mim, mas quem lia minhas palavras. Senti que eu vivia a minha missão.

De repente, um gosto bom veio à boca, um doce mais doce que o melhor açaí que já provei, uma sensação tão boa, quase infantil.

Lembrei das palavras que ecoaram do meu coração durante minha conversa com a Fernanda:

_Não quero adiar meu sonho. Hoje, meu foco é meu trabalho como escritora e eu sinto que vai dar certo. Uma hora eu vou parar de empurrar a roda e o motor vai girar sozinho. Tenho fé...vai rolar...

Puxei a colher cheia de açaí, tasquei na boca e sorri. Ao som de Fix You, senti aquele gosto bom de novo. Não preciso me consertar. Lights guided me home.

E, pela primeira vez…
eu não estava procurando.

Eu já tinha me encontrado.

_Eu sou escritora.

Falei encostando a cabeça no ombro de Thiago.

E essa história deliciosa…

já começou. Já está rolando…

Graças a Deus.

Obrigada por ter vivido essa carta comigo. Não desista dos seus sonhos. Siga firme, comemore cada pequeno progresso, cada vitória. Acredite em você. Confie em Deus e faça o que tem que ser feito.

Ah, e mais uma coisa. Quero te contar uma novidade.

Estou pensando em transformar em fazer o primeiro livro das Cartas da Luana.

E eu queria uma opinião sua.

Qual ou quais das minhas cartas você acha que deve estar nesse livro?

Estou ansiosa de saber sua opinião. Eu te espero na próxima semana para mais uma carta da Luana.

Fica com Deus.

Com carinho,

Luana