“Por que Cartas, Luana? Por que esse nome?”
Meu marido me perguntou quando escrevi a primeira das minhas Cartas da Luana.
E eu respondi:
“Porque carta parece algo íntimo, especial. Não é frio e automático como um e-mail. Carta parece algo profundo, como um abraço. Parece algo analógico, com papel, cheiro, selo. Algo importante, feito especialmente para alguém.
Hoje, enquanto lembrava da primeira das minhas Cartas da Luana, me lembrei também das primeiras cartas que enviei pelos correios.
Meus olhos, então, encontraram uma menina que escrevia cartas
De repente, vi uma menina pequenininha sentada junto à mesa de madeira escura da ampla sala, com chão de taco, que ficava no quarto andar de um antigo prédio no coração de Jardim da Penha.
A mesa encostava no peito da pequena, que, com o sorriso arqueado, escrevia com lápis uma carta em uma folha de caderno para alguém que amava.
Após finalizar a mensagem, a menininha pegou uma folha de chamex e cola à sua frente e fez um envelope que transportaria sua mensagem até o destino final: Mantênópolis, cidadezinha do interior do Espírito Santo, bem na divisa com Minas Gerais.
A carta estava dobrada, mas a menina, sem se mover, olhava para cima com as sobrancelhas e os olhos franzidos. Faltava algo. Bastou um instante para arregalar os olhos, levantar num pulo e caminhar até o quarto dos pais. Ao voltar, havia algo diferente. Ela trazia entre os dedos um batom.
A pequena voltou a se sentar em seu lugar, abriu o batom, passou-o nos lábios e beijou o papel ao fim da folha de caderno, deixando uma marquinha rosada. Então, pegou o lápis novamente e escreveu:
“Te amo, vó. Saudade!”
Eu sempre fui muito próxima da vovó. E gostava de contar tudo para ela. Escrevia sobre o que eu tinha vivido, o que eu estava pensando, o que eu estava sentindo. Colocava ali dentro as coisas simples do dia, que para mim eram grandes: a escola, as descobertas, as alegrias, os incômodos. Mesmo pequena, eu já tinha essa necessidade de organizar a vida em palavras.
Eu amava escrever cartas para minha vó Nita.
E ela me ligava toda feliz para contar que tinha recebido minha carta nova e como tinha gostado de tudo o que eu escrevia.
E eu perguntava:
— Vó, um dia você vai me escrever?
E ela respondia, com aquela simplicidade que hoje eu entendo ainda melhor:
— Ah, minha filha… sua vó não sabe escrever como você. Mas amo receber cada cartinha que você escreve.
Escreva mais, minha filha. Você escreve muito bem. Vovó tem muito orgulho de você.
Anos depois, aquela menina, hoje adulta, ainda ama escrever cartas.
Ontem, antes de iniciar esta carta que você está lendo agora, um vídeo de repente apareceu. Era Tony Robbins, um dos maiores palestrantes motivacionais do mundo. Em seguida, alguém lhe perguntou:
— Tony, o que faz as pessoas serem infelizes?
Ele respondeu sem rodeios: a falta de progresso.
As pessoas ficam tristes porque não estão progredindo.
Porque não estão desenvolvendo aquilo que é importante para elas.
Porque a essência delas não está viva, não está em evolução.
Aquela frase passou por cima de mim como um caminhão.
E, imediatamente, eu lembrei das minhas cartas.
Lembrei daquela menina que escrevia sem pensar se era bom, se era útil, se dava retorno.
Que escrevia porque amava, para quem amava.
Escrevia porque escrever era parte dela.
Porque ao escrever se sentia viva, inteira, plenamente feliz.
Engraçado que, ainda hoje, muitas pessoas me perguntam: o que você ganha com suas cartas?
E eu respondo: eu ganho a felicidade de ser quem sou. De trazer minhas palavras e o meu melhor para ajudar o mundo do meu jeito.
E eu sou profundamente feliz escrevendo minhas cartas e recebendo as mensagens de quem lê e se conecta comigo através dos meus textos.
Foi ali que eu percebi: Tony está certo, a felicidade não está ligada ao conforto ou ao dinheiro, mas sim a esse movimento interno de progredir em essência, de crescer e servir no que faz sentido.
Por isso, no mundo de comparação das mídias sociais, vemos tanta alegria momentânea e tristeza permanente. A necessidade de caber no que a sociedade determina como ideal muitas vezes nos afasta da nossa essência. E quando abandonamos a nossa própria singularidade e tentamos ser o que não somos ou fazer o que não faz sentido para a nossa vida, morremos aos poucos por dentro e a tristeza nos toma.
Não vou mentir, antes de começar a escrever as minhas Cartas da Luana, eu carregava, há muito tempo, uma pergunta em silêncio.
Embora não gritasse, ela me acordava à noite.
Parecia uma sombra, sempre ali, me acompanhando.
Até quando que eu vou adiar ser e viver aquilo que sempre fui?
Antes de qualquer coisa.
Antes da Luana advogada.
Antes da Luana pesquisadora.
Antes da Luana professora.
Sempre existiu em mim uma Luana que escreve, que observa, que sente, que traduz a vida em palavras.
E, curiosamente, tudo o que fiz depois só deu certo porque, antes, eu já sabia contar histórias.
Eu só tive sucesso porque eu sabia me comunicar.
Mesmo assim, por muito tempo, essa Luana escritora ficava às sombras, em segundo plano.
E eu dizia para meu marido:
— Que saudade da escritora que ainda não fui.
Eu tinha um bom trabalho, era reconhecida, elogiada, validada.
E, ainda assim, vivia incompleta, cansada.
Um cansaço de quem vive… mas vive sem toda aquela vida.
Parecia que algo estava faltando.
E eu não sabia exatamente o quê.
Dentro de mim, eu só sabia que queria escrever mais.
Que queria contar histórias.
Que queria conversar com as pessoas sobre humanidade, desafios, escolhas.
Eu queria abrir espaço para que, talvez, ao me ler, alguém também se sentisse autorizado a olhar para si e se permitir mudar a própria história.
Enquanto isso, o tempo passava.
E sabe qual é o lugar onde estão os maiores sonhos do mundo?
Infelizmente, no cemitério.
A maioria das pessoas passa por aqui sem realizar o que carregava no coração.
E isso sempre me incomodou profundamente, porque, sem querer, eu me via seguindo essa regra.
E eu me perguntava:
será meus sonhos vão morrer junto comigo?
Cada sonho da gente que morre, leva um pouco da vida que habita no nosso ser.
E eu me questionava?
Será que estou enterrando o meu talento?
Num sábado de manhã, recebi um texto lindo do Gustavo, meu colega. Logo depois recebi outro da Paula Abreu.
Li aqueles textos e me senti feliz, como alguém que recebe uma carta.
Como era íntimo.
Como era humano.
E pensei: por que não eu?
Talvez eu não começasse com uma grande lista.
Talvez fosse pequeno.
Decidi deixar de sentir saudade da escritora que não fui e começar a escrever uma nova história e protagonizar as minhas cartas e a minha sonhada carreira de escritora.
E assim nasceram as Cartas da Luana.
Como nasciam aquelas cartas da infância.
Simples, mas do coração.
Sem pretensão, mas com verdade.
Tomei coragem e dei o primeiro passo.
Hoje, quatro meses depois, escrevo religiosamente toda semana.
Recebo mensagens que guardo como tesouros.
E, sobretudo, eu me sinto viva.
Progredindo.
Feliz de um jeito que não cabe em planilhas nem explicações.
Talvez minha escrita nunca pague as minhas contas.
Talvez pague muito mais do que eu possa imaginar.
Eu não sei. Sinceramente, isso não importa.
Mas eu sei que escrever traz algo muito mais precioso:
a fidelidade a quem eu sou.
A certeza de realizar o meu sonho, e multiplicar o talento precioso que recebi.
Hoje, ao escrever esta carta, minha palavra é gratidão.
Gratidão por, antes da carta 1, ter tido coragem de começar.
Gratidão pelo apoio do meu marido, dos meus pais, dos meus filhos, que são os maiores fãs das histórias que eu conto.
E gratidão a Deus, que sempre me deu este dom e sempre me lembrou que a minha escrita precisava crescer para o mundo.
E agora eu te pergunto, com todo o carinho:
O que em você está pedindo para progredir, florescer?
Que dom você tem deixado guardado, esperando um dia para trazer à luz?
Talvez não dê dinheiro agora.
Talvez seja pequeno.
Talvez você só consiga começar com o que tem.
Mas comece.
Porque para viver feliz é progredir.
E progredir, às vezes, é só ter coragem de ser quem se é e fazer o que sempre fez sentido para você.
Com amor e uma marca de beijo rosado,
Luana
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