Estávamos eu e minha irmã com nossas famílias.
As crianças brincavam, gargalhavam, corriam em volta da mesa de sinuca.
Era uma tarde feliz, de um fim de semana de sol sob a brisa do mar.
Nós, adultos, estávamos sentados, conversando e saboreando um açaí.
O meu tinha frutas da estação, manga docinha, pistache e calda de chocolate por cima.
Meu marido insistia para eu provar o dele com maracujá.
Estava tudo perfeito.
Até que, entre uma colherada e outra, algo estranho tomou minha atenção.
Senti uma pontada interna, como um pulsar profundo dentro da barriga.
E depois outra.
E outra.
E outra.
A cada pontada, uma dor visceral.
“Pow! Pow!”. Eu não ouvia, mas sentia assim, como uma facada.
Meu corpo inteiro se arqueava, como se levasse uma pancada de dentro para fora.
Meu marido perguntou:
— Tá tudo bem, amor?
Respondi com a voz trêmula:
— Não. Tô morrendo de cólica.
A cada intervalo, a dor voltava ainda maior, esmagando minhas vísceras, até que a pressão caiu, o corpo gelou e eu perdi o ar.
— Thiago, eu não consigo mais ficar sentada — eu disse. — Eu preciso deitar, ou vou cair aqui mesmo.
Levantei cambaleante.
Quase de quatro, fui caminhando até o carro, enquanto meu cunhado me ajudava.
Depois disso, não me lembro de mais nada.
Apaguei.
Quando abri os olhos, meu marido estava ao meu lado.
— Tá tudo bem? — ele perguntou.
— Não. Tá tudo mal. Tá doendo tanto que parece que eu vou morrer.
Minha irmã chegou dizendo:
— Vamos pra minha casa. É aqui do lado. Eu tenho remédio. Você vai melhorar.
Enquanto isso, o sangue descia.
E a carne esmagava sem parar.
Sussurrei, quase sem voz:
— Thiago, tá descendo muito sangue. Não tô suportando.
A dor me consumia.
O corpo tremia inteiro.
Eu clamava baixinho:
— Deus, me ajuda. Tenho dois filhos para criar.
Quando chegamos, tive uma ideia sem noção:
— Thiago, compra um teste de gravidez.
Ele respondeu, confuso:
— Como assim? Você tem DIU há oito anos! Impossível.
— Só compra — repliquei.
Ele foi e voltou com o andar apressado, os olhos arregalados, coçando a cabeça.
Eu, exausta, com ajuda da minha irmã, juntei todas as minhas forças para chegar ao banheiro.
Peguei o copinho do teste e o entreguei cheio ao meu marido.
— Só tem sangue aqui, vai dar errado — disse Thiago.
— Faz assim mesmo — pedi.
Caí sem forças no sofá.
Minutos depois, ele voltou assustado:
— Deu positivo. Você tá grávida.
Grávida? Perguntei.
A palavra ficou ecoando na minha cabeça.
Minha irmã comemorou:
— Oba! Mais um bebê pra nossa família!
Por um instante, o sangue parecia lavar a alma.
O corpo doía, mas o coração batia — assustado, mas aliviado.
“Está tudo bem. É Deus agindo e trazendo vida nova pra minha vida”, pensei.
Um bebê é sempre bênção.
É esperança batendo à porta.
E como Jerome Groopman descreve em The Anatomy of Hope, a crença e a expectativa têm o poder de mudar o corpo, bloquear a dor e liberar endorfinas.
Acalmam a alma.
Aquela notícia fez com que eu me sentisse melhor.
Porém, como numa montanha-russa, a vida às vezes muda de tom em segundos.
A dor era forte, e eu segui para o hospital.
A médica da ultrassonografia perguntou:
— Está grávida?
— Parece que sim — respondi.
Animada, ela disse:
— Vamos tentar ver esse bebê?
O exame mal começou, e então a atmosfera mudou como uma tempestade inesperada.
Ouvi a médica respirar fundo.
Suas sobrancelhas arquearam.
Com a testa franzida, ela falou:
— Luana, vejo o seu DIU. Mas… seu útero está limpo. Não vejo nenhum embrião.
Meu coração disparou. O ar pareceu faltar.
Ela mexeu o aparelho, e doeu como um punhal.
No susto, pedi:
— Cuidado, doutora. Esse lado está insuportável.
Ela parou, olhou pra mim e completou com voz suave:
— Está aqui. É uma gestação... “ectópica” — dissemos juntas.
— Como você sabia? — ela perguntou.
— Não sei. Dói muito desse lado esquerdo.
Ela continuou:
— Você precisa agir rápido. O risco para sua vida é alto. Essa gestação não pode prosperar.
Quando voltei ao consultório, a médica que me acompanhava me olhou com doçura e falou devagar:
— Senta, Luana. No seu caso, o melhor caminho é o tratamento com o medicamento quimioterápico. É difícil, tem um monte de efeito colateral, mas é o mais seguro pra preservar a sua vida.
Se a gente não parar, sua trompa vai romper. Não haverá vida nem para o embrião e talvez... nem para você.
Aquelas palavras foram como mergulhar numa piscina de espinhos.
O sangue e as lágrimas desciam como correnteza.
Ela explicou:
— O medicamento vai interromper a gestação e cauterizar o sangramento.
Eu gelei.
Respeito a vida como dom sagrado.
Interromper uma gestação, ainda que necessária, era algo difícil para mim.
Naquela noite, não dormi.
A dor das pontadas era insuportável.
A dor da alma, indescritível.
Eu orava:
“Senhor, me deixa ficar. Me deixa cuidar dos meus filhos.”
Na manhã seguinte, fomos à oncologia.
Cheguei pálida, sangrando, desfalecendo.
A médica me recebeu com ternura.
Segurou minha mão, passou a mão no meu cabelo e falou, apertando minha mão:
— Vai dar certo, Luana.
Medicação feita, a médica nos apressou:
— Agora volta para o pronto-socorro. Você não está bem.
E ali fui internada.
Lutando pela vida e tentando vencer o medo de faltar.
Ao receber alta do hospital, voltando para casa, percebi quantas pessoas vieram me ajudar quando precisei.
A gente sempre tem medo de que algo ruim aconteça, mas quase nunca imagina quanto apoio vai receber.
A dor entra sem bater, mas, da mesma forma, a ajuda necessária atravessa portas, janelas e portões.
Meu marido, e amor da minha vida, não largou a minha mão e cuidou de mim o tempo todo, fazendo jus à promessa de “na saúde e na doença”.
Meus pais, minha família, minhas amigas, as equipes do hospital — todo mundo se uniu para me ajudar.
Recebi tanto cuidado quando precisei que, o tempo inteiro, me senti verdadeiramente amada pelas pessoas e por Deus.
E foi ali, entre lágrimas e gratidão, que eu percebi:
quando nossa vida parece ruir, existe um amor maior que segura nossos alicerces por nós.
Enquanto olhava as ruas da cidade passarem, percebi que, quando a vida da gente está em risco, temos duas escolhas:
olhar pra nossa história e dizer “o que eu fiz para merecer isso?”, enxergando só o vazio do copo,
ou olhar para o desafio e reconhecer o quanto temos no nosso copo:
“meu Deus, como a minha vida é abençoada!”.
Quantas bênçãos, quantas pessoas, quanta vida existe na minha vida.
Muitas vezes, pela correria, pelas pressas, pelas dores, a gente não percebe o quanto tem.
O risco de perder tudo limpa nossa lente, e conseguimos ver com clareza o quanto a nossa vida tem valor — e o quanto de valor temos nas pessoas da nossa vida.
A mesma dor que me derrubou me encheu de fé e gratidão.
Gratidão por conseguir ver, com clareza, o quanto eu já tenho e o quanto vale a pena viver.
Fé em Deus e num mundo bom.
Quando enfim cheguei em casa, o corpo ainda estava em frangalhos,
mas a alma exalava paz, que se completou com os abraços e beijos carinhosos dos meus filhos ao me receberem.
— Mamãe, olha o que chegou! — disse o meu mais velho.
Apontava para uma caixa grande na porta da sala.
Ao abrir, me emocionei.
Parecia que Deus tinha orquestrado um desfecho perfeito para tudo que vivi.
Na próxima carta, eu vou te contar o que tinha na caixa e o que aconteceu depois.
Uma expressão divina que nem na minha melhor história eu poderia arquitetar.
Faça sua inscrição gratuita na minha newsletter que vou te contar.
Se você gosta das minhas cartas, envie para alguém que você ama.
Fica bem.
E se cuida.
Com carinho,
Luana
Obs. Cuide da sua saúde. Cuide bem de você.
Você é muito valioso para Deus e para muitas vidas.
Se algo parecer estranho ou diferente, procure atendimento médico.
Ainda não há comentários aprovados.