Ainda era cedo.
O sol mal havia nascido, e da janela do hospital eu via dois pássaros ao longe.

Eles brincavam entre o verde da mata e o concreto da cidade.
Planavam, subiam e desciam com graça, como se tivessem pleno domínio do vento, dançando com a manhã, se divertindo com os primeiros raios de sol.

E eu olhava para eles, fascinada pelo controle com que faziam suas belas manobras.
Tanta vida.
Tanta liberdade.
Tanta alegria.

Inesperadamente, as pontadas internas me tiravam da contemplação do céu e me levavam ao cerne das minhas vísceras.
O sangue e o soro caíam sem parar, e me forçavam a olhar para dentro.

Eu estava em um leito.
Deitada, com os braços roxos e o corpo doendo, o medo me visitava em silêncio.
Mais do que a dor física, era o medo que me lacerava.
O medo do que viria.
O medo de não voltar.
O medo de faltar para quem eu mais amava.

Estendia os olhos e sentia-os se inundando ao ver meu marido, com a coluna machucada, tentando dormir mal-arranjado no sofá-cama à minha frente.
Pensava nos meus filhos.
Olhava a pulseira de miçangas coloridas que minha filha havia feito para mim, juntava as mãos, apertava e orava.
Clamava a Deus que tivesse misericórdia da minha vida e da minha família.

E me perguntava:
Por que eu estou vivendo tudo isso?
O que a vida quer me ensinar?

Enquanto os pássaros voavam livres, eu travava uma batalha física e mental.
Para ficar bem.
Para ficar forte.
Para não perder o ar.

Paradoxalmente, foi ali, no limite da dor e da incerteza, que aprendi uma das lições mais profundas da minha vida:
nós não temos controle de nada, a não ser das nossas ações e dos nossos pensamentos.

E quando a gente percebe que não tem o controle, a vida nos ensina a ter humildade.
Humildade para se permitir pedir e receber ajuda.
Humildade para confiar.

Em Deus.
Nas pessoas conhecidas e desconhecidas.
No amor que nos sustenta por dentro, mesmo quando tudo em volta parece ruir.

Naquela manhã, algo dentro de mim mudou.
Entre a dor, o medo e as incertezas, eu aprendi o significado real de ter humildade para aceitar a minha vulnerabilidade e, mesmo assim, confiar.

Eu consegui ver quantas riquezas verdadeiras eu tenho na minha vida.
E o quanto Deus era cuidadoso comigo em cada momento,mesmo na dificuldade.
Nos instantes em que a dor apertava e o ar faltava, a presença de Deus se fazia forte, e me sustentava.

A mim cabia focar na presença d’Ele e no amor dos que amo, e não na dor ou no medo que tentavam me afogar.
No amor d’Ele — e no amor dos que me rodeavam — eu encontrei forças para vencer a incerteza e me manter em paz e segura mesmo sem ter o controle. Porque, no fim do dia,

o controle era de Deus e não meu. E nEle posso confiar.


Na próxima carta, eu vou te contar o que aconteceu depois,
o que essa experiência me ensinou sobre fé, amor e o poder invisível das mãos que nos sustentam quando a gente não consegue se manter de pé por si só.

Eu não sei quais as batalhas você enfrenta hoje. Mas te digo, Deus proverá. Confia.

Fique bem e com muita saúde. Cuida de você.


Com carinho,
Luana


Portanto, eu lhes digo: não se preocupem com a própria vida, quanto ao que comer ou beber; nem com o próprio corpo, quanto ao que há de vestir.

(…)

Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas?” (Mateus 6:25-26)