_Vovô, os caranguejos estão vivos no balde! Por que eles não fogem?
_Para de perguntar e observa. A resposta está aí, na sua frente.
O ensinamento do velho senhor, com a sabedoria que só a vida vivida é capaz de ensinar, foi a primeira imagem que me veio à mente quando vi a mensagem hostil.
Abaixei a cabeça.
O rosto corou.
Os olhos encheram d’água.
É duro receber, em palavras, o golpe rasteiro de alguém que você já ajudou muitas vezes. Alguém por quem você tinha um verdadeiro carinho.
Não vou mentir: senti vergonha. Perdi o ar. Perdi o chão.
Literalmente, fiquei sem palavras.
Talvez você tenha notado o meu silêncio nos últimos dias.
Se você me perguntasse sobre a minha ausência, eu te responderia: estou trabalhando demais. E isso é absolutamente verdadeiro.
Mas, eu preciso ser sincera com você que lê as minhas cartas...
Mesmo trabalhando muito, eu sempre consegui dar um jeito de escrever. Nem que fosse de madrugada.
No fundo, o que me travou era algo muito mais denso do que o tempo ou o cansaço.
Foi uma ferida aberta por palavras que atingiram em cheio o meu coração.
Interessante, é que a decepção que agora me entristecia, foi o tema de uma conversa que tive com a Flavinha, minha amiga e mentorada, uns dias antes.
_Amiga, como é difícil ter amizades verdadeiras depois que a gente se torna adulta! Eu agradeço a Deus por nossa amizade porque isso é tão raro nos dias de hoje...
_ É verdade, Flavinha. Infelizmente, vivemos num mundo de comparação. Muitas pessoas não torcem umas pelas outras. Mas, graças a Deus nós estamos juntas.
_Amiga é inacreditável. Agora eu consigo ter clareza. Pessoas do meu convívio viram outras me dando parabéns por eu ter tirado nota máxima e concluído o meu Doutorado e não fizeram nada. Não me deram parabéns, não me dirigiram a palavra. Ao contrário, algumas vieram me dizer que meu título não valeria de nada, e que ele só tornaria a minha carreira mais difícil.
Flavinha. Pausei. Enchi o peito de ar._ Sinto muito, amiga. É realmente frustrante. Mas, infelizmente, o mundo está cheio de invejosos e destruidores de sonhos. Essas pessoas fazem questão de te puxarem para baixo quando você está indo bem, quando você está partindo para construir uma nova história. Conheço essa sensação, amiga.
Mal terminei de falar e me lembrei de uma história contada por Flávio Augusto, empresário da Geração de Valor, sobre os destruidores de sonhos.
Flavio era jovem, cheio de sonhos, tinha acabado descobrir que era bom em vendas. Vendia cursos de inglês por meio de apresentações presenciais e estava animado com os primeiros resultados.
Certo dia, um vizinho marcou com ele uma apresentação.
Flávio fez o melhor pitch que pôde. Quando terminou, o vizinho disse:
_Eu não vim aqui para te ouvir, vim para te dizer: sai fora disso. Esse negócio de vender curso de inglês é uma furada. Você é inteligente demais para desperdiçar sua vida vendendo cursinho.
O sorriso com que Flávio terminou a apresentação desapareceu como o tempo que se fecha em tempestade.
Foi um golpe forte... Doeu. Mas Flávio persistiu, graças a Deus.
É interessante que, muitas vezes, os destruidores de sonhos aparecem justamente quando a gente está animado para uma nova etapa com grandes promessas.
Eu que o diga.
Era uma sexta-feira ensolarada de maio, quando acordei o céu estava colorido, o sol estava prestes a sair. Eu acho lindo como a noite e a manhã se misturam em cores diferentes nessa transição da madrugada. Num piscar de olhos, o céu parece um canvas pintado em aquarela azul, rosa, laranja, tantas cores...tanta vida. É um espetáculo! Uma verdadeira obra de arte diária e gratuita de Deus.
Parei na janela para observar. Fiz minhas orações e leituras. O coração estava em paz e o dia seguia como esperado. Fui trabalhar na mesma cadeira ao lado da almofadinha colorida dos meus cãopanheirinhos.
Depois de horas de trabalho, os lábio secaram, estiquei o braço e peguei a garrafinha.
_Humm
Estava vazia. Eu me levantei e fui à cozinha. Quando estava prestes a sentar, vi o meu celular no armário. Abri e, para minha surpresa, um nome conhecido estava no topo das mensagens!
Olhei e falei:
_Olha. Será que ele precisa de alguma coisa?
Ao abrir a mensagem, me surpreendi com suas palavras.
“Para, por gentileza, de me mandar essas mensagens.”
Seco assim. Quase não consegui respirar...
Meus olhos encheram de água. Fiquei arrasada! Pela forma que ele falou. Pela pessoa que tantas vezes me pediu ajuda e eu sempre ajudei.
Acho que ele quis que eu me sentisse pequena. E, por um momento, conseguiu.
Segurei minhas mãos e fiquei me perguntando: será que eu estava errada em continuar?
Mas pensei melhor. São nove meses de cartas, de milhares de mensagens lindas, de gente que esperando por minhas palavras, e uma palavra de uma pessoa me fez questionar tudo isso?
Não. Não é justo. Eu não vou entregar a uma mensagem de uma pessoa que não quer me ver bem o poder de interromper a minha missão.
Lembrei então de uma frase atribuída a Epicteto: "Ninguém pode ferir você sem que haja uma ferida aberta dentro de você."
Epicteto tinha razão. Aquela mensagem não criou a dúvida. Ela só chutou uma porta que eu deixei entreaberta.
No entanto, sei que o que acontece comigo é muito mais sobre como eu decido me comportar em relação a isso. Então, eu decido entender que isso é um recado da vida para mim. Isso é uma confirmação da vida para eu pensar num próximo passo para expandir as cartas de uma maneira mais profissional.
Mas, por mais que a razão esteja tudo acertado, eu fiquei emocionalmente abalada. Tanto que fiquei dias sem escrever. Mas a vida é assim...
Existem pessoas prontas para te colocar para baixo pelo simples prazer de fazê-lo.
É a história do balde de caranguejo que eu ouvi da Andrea Vermont no Youtube.
Depois da fala do avô, a Andrea menina observou o balde por um tempo. E percebeu: nenhum caranguejo saía do balde. Não havia tampa. Não havia corrente. O que impedia cada um de sair era o próprio movimento dos outros. Sempre que um tentava subir, outro puxava de volta. Ela percebeu que é assim que caranguejos em balde se comportam. É o que eles sabem fazer.
E, muitas vezes, acontece o mesmo conosco.
Muitas pessoas do nosso meio não suportam nos ver crescendo. Não suportam nos ver tentando sair do lugar onde elas estão presas. Não suportam nos ver sonhando, construindo, avançando, aparecendo, florescendo.
Então, elas te puxam.
Com uma crítica.
Com um ato de te ignorar.
Com uma ironia, uma ignorância.
Com uma “preocupação” disfarçada de conselho para te parar.
Com uma palavra que tenta fazer você duvidar de você e do seu próprio caminho.
Mas nós não podemos permitir que os destruidores de sonhos determinem até onde vamos.
Não podemos deixar que a opinião de quem está no balde decida quão longe podemos alcançar.
Nem toda crítica merece resposta.
Nem toda rejeição merece mudança de rota.
Nem toda palavra dura é direção da vida.
Às vezes, é só o barulho de alguém tentando te puxar de volta para um lugar que você já decidiu deixar.
Então, hoje, eu escrevo esta carta para você e para mim.
Para lembrar que uma mensagem ruim não apaga milhares de mensagens boas.
Uma pessoa incomodada não anula uma missão com milhares de pessoas.
Uma palavra amarga não pode interromper um fluxo de mensagens que nascem com verdade, com amor.
Se você está tentando sair do balde, continue.
Mesmo que te puxem.
Mesmo que riam de você.
Mesmo que tentem te silenciar.
Mesmo que te digam que não vai dar certo.
Continue.
O mundo precisa de gente com coragem suficiente para subir, sair do balde e, lá de cima, estender a mão e o coração para quem também quiser sair.
Não entregue a chave do seu futuro promissor a quem só sabe viver preso no balde.
Obrigada por chegar até aqui. Se fizer sentido, envie essa mensagem a alguém que precisa dessas palavras.
Muitas alegrias e realizações para você.
Com carinho,
Luana
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