Quando o corpo grita, é porque o coração já cansou de pedir e encontrar apenas o nosso silêncio.

Era sexta-feira de uma lua estonteante. O vento soprava a brisa fresca que vinha do mar. Ver as gargalhadas dos priminhos brincando juntos curvava nossos lábios, igual lua crescente em céu estrelado.

Nossas crianças jogavam bola e inventavam brincadeiras no parquinho perto de casa. Encostei na grade e deslizei as costas até sentir o frio do concreto no chão, como quem entrega o peso de uma dura semana. Sentada, falei:

— Irmã, vou ficar aqui mesmo.

Abracei as pernas e apoiei a cabeça nos joelhos.

Minha irmã seguiu meu movimento. Abaixou devagar, dobrou as pernas e segurou os joelhos.

Sem que eu percebesse, minha irmã virou a cabeça. Seus olhos pousaram sobre mim. Marcély, que me conhece como poucos, falou:

— Lu, você está cansada.

Respirei fundo.

— Estou acabada, irmã. Ombro queimando. Cervical doendo. Essa semana foi barra.

Enchi os pulmões e, com o ar, saiu um sorriso de canto da boca junto a um franzido na testa.

— Já não bastam os desafios da vida, que não são poucos… ainda aparecem outros que sequer dei causa. Mas seguimos firmes na luta, não é?

Marcely é terapeuta e trabalha com trauma. Ela usa uma técnica que mobiliza o próprio corpo para localizar a origem emocional das dores. Ao tocar determinados pontos, a pessoa acessa memórias gravadas no subconsciente e traz à consciência o trauma, a dor que precisa olhar e cuidar.

Minha irmã colocou a mão sobre o meu braço, encontrou meus olhos nos dela e disse:

— Lutar cansa, Lu. Mas tem horas que a gente tem que parar e se cuidar. Você cuida de tanta gente. Coloca você nessa lista. Tira um tempinho só para você. Faz assim: deita na minha maca qualquer dia desses. Deixa eu cuidar de você.

Sorri.

— Obrigada, irmã… estou precisando.

Na hora, a imagem de uma conversa recente se acendeu em minha mente e respondi como quem vê o que acontece quando se ultrapassa o sinal vermelho da vida.

— O corpo grita em dor aquilo que a gente não quer escutar, não é?

— Com certeza, Lu. E o seu está te chamando agora.

— Danou-se! — respondi.

Rimos juntas.

— Então, Lu, tira essa armadura de aço de superwoman e se permita parar e cuidar de você.

Sorri com os olhos vermelhos e molhados.

— Vou sim, irmã… antes que ele grite mais alto.

Ao vocalizar a última palavra, uma lembrança viva fechou o meu sorriso.

Naquele exato momento, eu me lembrei que havia dito quase isso mesmo para uma cliente.

Fiz o divórcio dela. Um processo de muita dor. Como advogada, vejo que, para ela e para a maioria das pessoas, o divórcio é um luto.

Mesmo quando consensual, ele carrega despedidas, frustrações, conflitos, choro, adaptações, mágoas e muita, muita dor.

E eu acompanhei o processo jurídico e emocional dessa mulher. Em determinado momento, o corpo dela começou a dar sinais claros de esgotamento que me deixaram extremamente preocupada. Eu via o sofrimento dela vivo, sangrando.

No auge desse terremoto emocional e jurídico, ela me mandou uma mensagem:

— Estou no hospital.

Gelei, temendo o pior.

Então veio a segunda mensagem.

— Quebrei o braço.

Nossa, que alívio, pensei.

Minha cliente, uma profissional dedicada, uma mulher de aço, forte, determinada, resolvida, nunca dependeu de ninguém, teve que parar.

O controle saiu de suas mãos e ela se viu perdida, sem chão. Só cabia a ela aceitar. Mesmo contra a vontade, ela precisou parar, olhar para si, se cuidar, se permitir ser amparada.

O corpo nos dá sinais amarelos. Depois vermelhos. E a gente continua ultrapassando esses sinais a toda velocidade. A gente insiste em ignorar nossos limites. Até que... O corpo freia e a gente vê que o controle nunca foi nosso e que existe um coração de carne por baixo da armadura de metal.

Quando o corpo freia, é o coração que precisa de cuidado.

Algum tempo depois da sentença, voltamos a conversar. Recuperada, ela me falou rindo:

— Lu, você acredita que a minha psicóloga teve a ousadia de me dizer que eu quis quebrar o braço?

Nós duas rimos.

— Eles falam cada coisa maluca, né? — respondi.

Mas, depois de pensar um pouco mais, me retratei:

— Na verdade, faz sentido. O nosso corpo fala o que o nosso subconsciente grita e o nosso consciente teima em não ouvir.

— Você estava esgotada. Não fazia sentido continuar naquele batidão. Mas a gente se acha invencível… e não se permite parar e admitir que precisava de ajuda.

Depois de uma pausa, olhei para minha cliente e perguntei:

— Por que que a gente é assim? Que síndrome de superwoman é essa que a gente tem?

O corpo fez pela minha cliente aquilo que ela, conscientemente, não conseguia fazer sozinha.

Engraçado como o corpo fala o que a gente não quer ouvir do coração.
Ele fala claro.
E de diferentes maneiras.

Semana passada tomei um susto ao ver uma foto de Ivete Sangalo com o olho roxo.

Pensei:

Meu Deus, o que aconteceu?

Depois descobri que ela desmaiou e se machucou na queda.

E aquela imagem me fez lembrar do Carnaval.

Eu tinha visto Ivete no trio elétrico em Salvador, conduzindo multidões com a alegria que lhe deu o título de rainha do carnaval baiano

Mas, neste ano, havia algo no olhar dela que me incomodava.

Pouco antes do Carnaval, ela e o marido haviam anunciado o fim de um casamento de 17 anos.

Três filhos.

Uma vida inteira compartilhada.

Ele se isolou em um sítio.

Ela subiu no trio elétrico e levantou multidões.

Não sei se é por minha experiência de advogada ou por minha condição de mulher que vive achando que precisa dar conta de tudo, mas, ao olhar para ela, eu só sentia compaixão.

As pessoas a viam linda, esplêndida, a rainha do Carnaval de Salvador.

Mas eu, Luana, ao olhar para ela, só pensava:

Meu Deus…
que peso tem essa coroa.
Como rainha, ela contagiava a multidão, mas eu só conseguia ver o seu coração de mulher, que, no fundo, precisava de colo.

Agora, ao ver o seu rosto marcado, meu coração se espremeu. O corpo dela falou. Deu vontade de ligar para ela e dizer:

Amiga, para um pouco. Cuida de você.

Antes da coroa existe uma mulher. Existe sempre um coração humano que, por mais forte que seja, também precisa de colo, também precisa de voz.

Assim como eu.

Assim como o meu.

Depois de algum tempo em conversa com meu mundo interior, levantei os olhos para as crianças no parquinho. As gargalhadas ainda coloriam o ar. Respirei fundo. O ombro ainda queimava, mas agora menos. A cervical ainda doía. Mas agora menos.

Ali, encostada naquela grade, com minha irmã do lado, amparada no ombro dela, eu tinha parado.

Sexta-feira.
Lua cheia.
Céu estrelado.
Eu estava sem coroa.
Sem armadura.
Eu estava amparada.
Eu estava em paz.

P.S. Se essa carta te abraçou de alguma forma, se você já viveu um chamado do corpo, compartilha comigo também. Escreve aqui embaixo ou no meu e-mail (contato@luanasampaio.com). Vou adorar te escutar e prometo te responder com todo carinho.

Se cuida, você merece.

Com amor,

Luana