_Meu Deus, o que foi isso?!
Falei enquanto reunia as forças para levantar. Tonta, procurava meus chinelos à beira da cama. Fechados, os olhos demoravam a abrir. A mente, no entanto, fervilhava.
A decisão estava tomada. Cansada ou não, eu precisava de respostas que ali não iria encontrar.
Meu filho tinha se batido e teve espasmos a noite inteira.
Só caiu no sono no auge da madrugada.
Dormiu muito tarde.
Dormiu muito mal.
Enquanto fechava a porta na ponta dos pés, pensei.
Só pode ser esse remédio que o médico prescreveu.
Caminhei até a cozinha. Enchi minha garrafinha d’água. Precisava de ajuda para fazer descer tudo aquilo que sentia. Sentei.
Cada gole vinha carregado de preocupação.
Era cedo demais, naquele horário não conseguiria falar com ninguém. Comecei a trabalhar até dar o horário do consultório abrir.
Finalmente, oito horas. Disquei o número. O telefone chamava e o coração quase saía pela boca.
A secretária atendeu.
A falta
Porém, a resposta foi bem diferente do que esperava. Seca, sem espaço para conversa, ela me despachou:
— Ele está de férias. Só volta dia 23.
_E o que devo fazer? Eu paro o remédio? Diminuo a dose?
Ela finalizou.
_ Eu não posso fazer nada.
Mais uma vez, procurei a orientação dele.
Mais uma vez, encontrei apenas indisponibilidade.
Enquanto digeria aquilo, lembrei da última consulta.
O mesmo médico indisponível havia criticado, com dureza, as prescrições da outra médica que fomos.
Pior, virou-se contra nós e disse que éramos do tipo de gente que gostava de remédios “naturais”, que não serviam para nada.
É muito difícil você pagar caro para ouvir algo assim.
Interessante que só procuramos outra médica porque não encontramos a orientação e o diálogo que este médico não traz mais.
Aquelas palavras soaram ainda mais inadequadas quando percebi que, na prática, há muito tempo ele tem se tornado cada vez mais distante.
O telefone ainda estava na mão, então abri as mensagens, até para sair um pouco daquela vibração.
A mensagem
A primeira mensagem era do meu amigo Márcio:
“Não julgue o outro. Cabe a Deus julgar, não a nós.”
Era uma passagem de Lucas.
Daquelas coincidências que são, na verdade, providência.
Não cabe a mim julgar.
Não sei o que aconteceu ou o que está acontecendo na vida dele.
Lembrei daquele mesmo médico há alguns anos. Suas consultas eram esclarecedoras, acolhedoras.
E comparei com as últimas, rápidas e superficiais.
Talvez, na caminhada em que ele encontrou fama, em algum ponto do caminho, ele se perdeu do propósito que antes carregava. Parece que o brilho no olhar e a verdadeira vontade de ajudar se perderam em alguma esquina da estrada.
Quando a gente perde o olhar humano e acolhedor, o propósito do trabalho também se perde.
Quando a gente julga os outros com a nossa realidade, a gente destrói as pontes que nos conectavam e nos permitiam ajudar o outro a atravessar seus desafios.
É no outro que encontramos sentido e valor ao que fazemos.
Julgar pesadamente o outro com a minha realidade é desconstruir o propósito, é desconstruir a nossa própria humanidade.
A mensagem por trás do milagre
Foi então que lembrei de uma história que vi esses dias.
Uma criança de quatro anos, escalou o banheiro e caiu da janelinha do décimo andar do prédio.
Li o relato da mãe e chorei com ela.
Ela dizia que vivia sob julgamento.
Que as pessoas levantavam suas vozes e seus dedos para condená-la. Falavam que ela era descuidada.
Ela dizia que pior do que o julgamento de fora era o que ela carregava por dentro.
Ela confessou que sequer consegue dormir. A culpa não a deixa descansar.
A dor de pensar que poderia ter feito algo diferente.
A dor de não ter imaginado o que poderia acontecer.
A dor de dar o seu melhor e ver o mundo desabar.
No relato daquela família, mais uma vez senti: como a gente julga.
Como julgamos pais.
Como julgamos famílias que estão fazendo o melhor que podem — com as ferramentas que têm.
Escrevi para ela na mesma hora:
“Mãezinha, sinta-se abraçada. Você é tão merecedora que Deus te deu o milagre de seu filho estar vivo e cuidado por você hoje. ❤️”
Escrevi do coração e centenas de pessoas sentiram e interagiram com minhas palavras. Espero que aquela mãezinha também tenha sentido.
A verdade é que ninguém é perfeito.
Ninguém consegue prever tudo.
Só Deus controla a vida.
Ainda assim, nós, pais, amamos.
Cuidamos.
Criamos com o melhor que a gente tem, da melhor forma que a gente pode.
E esse mesmo Deus que tem o controle nas mãos honrou o cuidado daquela família ao preservar aquela preciosa vidinha.
O convite do Medicão
Andando pelo mundo percebo o quanto o meu livro, Medicão, é atual.
O livrinho, que nasceu para crianças, carrega uma mensagem necessária para adultos: empatia.
A empatia de quem olha com o coração e acolhe com a alma.
Olhando de fora do portão, não se conhece uma casa.
E, muitas vezes, tudo o que existe do lado de dentro é uma família exausta querendo uma mão amiga ou apenas um olhar que diga:
eu te vejo, eu te respeito. Vai dar certo.
Nossos olhos, tão presos às telas perfeitas, esquecem que a vida real não vem com filtro. Esquecem de consultar o coração antes de julgar.
É o coração que nos lembra que somos humanos.
E que o diferente também é gente. Igual a gente.
Por isso, o Medicão, meu livro infantil, é tão importante nos dias de hoje.
Ele traz um convite a olhar com os olhos do coração.
A suspender o julgamento.
A devolver humanidade a quem cuida, a quem ama, a quem luta todos os dias em silêncio.
Porque o tum tum que pulsa aqui…
pulsa aí…
e pulsa ali dentro também.
Que o nosso melhor possa ser a medicina necessária para acolher e não julgar as pessoas, principalmente aqueles pais e mães que dão o melhor de si para cuidar de seus pequenos.
Que a gente possa ver o outro com empatia.
Que a gente possa trazer nos nossos olhos o coração que, magicamente, bate no mesmo ritmo quando a gente se acolhe, quando a gente sente nosso propósito vivo ao estender a mão para acolher quem precisa.
Que a gente possa manter viva e brilhante a luz dos olhos que vem da pureza do coração que respeita, que acolhe e que não julga.
Para você
Então a você, pai, mãe, que recebeu sua criança sem manual,
que ama de toda alma, que dá o seu melhor todos os dias, mesmo cansado, mesmo com medo, mesmo sem ter todas as respostas,
o meu abraço.
Um abraço apertado.
Daqueles que dizem: eu te vejo, eu te sinto.
Não se importe com a crítica do lado de fora.
Quem fala de fora não conhece a sua casa, não conhece as noites sem dormir, não conhece o amor que faz você acordar cedo e oferecer o seu melhor sorriso, depois de uma noite em vigília.
Deus vê sua dedicação.
Deus reconhece o seu amor.
Deus escolheu você para ser o responsável pela sua criança porque você é a pessoa certa para isso, porque Ele confia em você.
E Ele vai honrar seu amor, sua dedicação, assim como honrou aquela família.
Com carinho de uma mãe,
Luana
Obs.) Envie este texto a uma pessoa que está fazendo um ótimo trabalho como pai ou mãe! Não esqueça: diga isso a ela!

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