Era uma tarde ensolarada de domingo quando o cheiro do café arábica recém-passado se espalhou pela casa dos meus pais.
Mamãe colocou a mesa com aquele cuidado: pão de queijo assado na hora, castanhas, frutas, e me chamou:
“Lu, senta aqui! Vem tomar um café comigo!”
Sentei. Ela me olhou como só mãe olha — aquele raio X que atravessa o corpo — e disse:
“Olha ela! Não é que você perdeu uns quilinhos?!”
“Graças a Deus, mãe! Finalmente estou conseguindo levar adiante a minha dieta.”
Ao encher a xícara, brinquei:
“Também pudera! Estou igual coelho… só como salada!”
Rimos. Mas, no instante seguinte, como quem dá de cara com uma verdade, eu disse:
“Mãe… eu só estou conseguindo emagrecer porque tenho alguém me ajudando, preparando a minha comida.”
Respirei fundo, deixei o gole de café me aquecer por dentro e perguntei:
“Agora me diz… por que a gente demora tanto para entender que, muitas vezes, a solução do nosso problema está no outro?”
Era a mais pura verdade.
Se o meu projeto Luana Fit 2026 der certo, os créditos vão para as saladas da Meiriane.
Antes dela, eu comia o que sobrava, o que cabia entre uma demanda e outra.
Foi difícil admitir, mas preciso reconhecer: eu precisava de ajuda.
Emagrecer não é só força de vontade.
Faltava eu abrir um espaço na minha vida para cuidar de mim, sem que isso significasse colocar mais um peso nas costas.
A vida adulta de uma mãe que cuida, trabalha e ainda sonha não é brincadeira.
A conta não fecha, assim como a lista de tarefas que nunca chega ao fim.
Guerreiras, tentamos abraçar o mundo e, no final, somos nós que ficamos exaustas — sem energia, sem tempo, sem abraço, sem cuidado.
Mas a vida me ensinou: ou eu delego ou eu não saio do lugar.
Ou tem salada pronta na geladeira, ou eu vou comer qualquer coisa que não devo.
E o mais bonito é que, quando você se compromete com o outro — com quem prepara sua comida, com seu companheiro de vida e de academia, com sua professora, com as pessoas que te ajudam — o compromisso ganha vida, ganha rostos, ganha raízes.
A gente se sente forte com a força daqueles que acreditam em nós.
Essa lição vale para tudo: dieta, carreira, trabalho, projetos, escrita, sonhos.
Ninguém cresce sozinho.
Nenhum grande plano se sustenta por uma pessoa só.
Sobre morar fora e um vazio que não cabe no mapa
Mais tarde, conversando com minha amiga Janaína, falamos sobre fazer um doutorado fora.
Ela disse:
“Confesso que sinto um aperto só de imaginar ficar longe da família por tanto tempo…”
E completou:
“Não por mim. Mas pelas crianças ficarem longe dos avós, dos primos.”
Eu entendi na hora.
Quando morávamos nos Estados Unidos, todo fim de semana eu sentia falta de algo simples que no Brasil a gente nem valoriza:
Ir para a casa dos meus pais.
Almoçar com minha sogra.
Conversar com minhas irmãs.
Ver meus sobrinhos brincando com meus filhos.
Ser parte de um grupo que conhece o meu nome, minhas paixões, meus defeitos, minha história.
Nós somos seres sociais.
Mais do que isso: somos seres culturais.
A cultura não está só no idioma ou na comida.
Está na nossa forma de expressar a vida, de amar, de rir, de educar os filhos, de preparar a mesa, de olhar o mundo.
E foi só vivendo longe, fora do meu círculo, que aprendi o valor de ser parte.
Eu aprendi muito com a cultura americana e sou extremamente grata por tudo que vivi lá.
Mas há lugares na minha alma que gritam o Brasil que eu sou.
Pertencimento
Em 2006, quando morei nos Estados Unidos pela primeira vez, eu não senti tanto.
Eu estava sempre cercada de brasileiros: primos, tios, amigos.
Mesmo no exterior, em Massachusetts, meu ambiente era rodeado de gente como eu.
Desta última vez, não.
Na cidade onde vivíamos, não havia brasileiros.
Não havia comida brasileira, música brasileira, conversa brasileira.
E eu sentia uma falta por dentro que nada preenchia.
Lembro de janeiro de 2024. Voltávamos das férias no Brasil.
Saímos de um aeroporto cheio de calor humano, chegamos em outro no frio vazio, sem ninguém a nos esperar.
Ao vestir o casaco, meu filho olhou com os olhinhos marejados e disse:
“Mãe, quero voltar.”
Eu o abracei forte e sussurrei: “Eu também.”
O calor humano faz falta.
Meses depois, saímos da Virgínia rumo a Massachusetts para visitar meus tios.
E ali aconteceu algo tão simples, mas tão profundo, que eu nunca mais esqueci.
Placas em português.
Restaurantes brasileiros.
Cores e cheiros familiares.
Entramos em um deles.
Quando o prato chegou, meus olhos encheram d’água.
Aquele aroma.
Aquele tempero.
Aquela prato era uma memória viva.
Era o sabor da minha infância.
A farofa lembrava a que Marcély trazia de Ilhéus para mim.
Sentia o cheiro da cozinha da minha casa.
O tempero de onde eu vim.
Aquela comidinha simples — arroz, feijão com alho e cebola — me levou direto ao almoço na casa da Dona Edna, minha sogra.
A cada garfada eu fechava os olhos.
Nem ligava mais do frio lá fora.
Aquela comida me aquecia.
Me envolvia.
Acolhia o meu coração.
Foi sensacional.
Por toda parte, gente falando português.
Cada “bom dia”, cada “pois não”, cada “tudo de bom” reacendia uma luz verde e amarela dentro da minha alma.
Mesmo no cinza congelante de Massachusetts, algo em mim floresceu: pertencimento.
Na casa dos meus tios, o carinho, a conversa, meu primo falando de futebol…
Tudo aquilo foi um aconchego para a alma.
Era como tirar o casaco do inverno e vestir o coração de novo.
Era estar longe, mas se sentir em casa.
Foi ali que entendi: pertencimento é tão essencial quanto alimento.
Porque nossas raízes precisam de terra familiar para continuarem vivas.
Meu povo do coração quente
No Brasil temos muitos problemas.
Mas uma coisa é fato:
O coração do povo brasileiro é único e quentinho.
Nós agregamos.
Nós dividimos.
Nós rimos alto.
Nós celebramos.
Nós acolhemos.
Não carregamos aquela lógica anti-imigratória que cresce lá fora.
Pelo contrário: o estrangeiro é recebido, abraçado, convidado para sentar e tomar um café.
Talvez seja o sol que aquece o corpo e a alma.
Talvez seja a miscigenação que nos ensinou a conviver com as diferenças.
Talvez seja algo ancestral, uma memória coletiva que diz:
“Seja bem-vindo. Senta. Toma um café. Bora conversar!”
O que eu sei é que somos um povo de coração quente.
E isso é irresistível.
As raízes que carregamos
Hoje eu sei.
Podemos morar onde quisermos.
Aprender outras línguas.
Construir novas rotinas.
Abraçar novos caminhos.
Mas existe sempre um lugar onde o coração descansa melhor.
Esse lugar não é geográfico.
Não é físico.
É o território invisível onde nossas raízes moram.
Porque, no fim das contas:
Ser brasileiro é um jeito de sentir.
É um jeito de amar.
É um jeito de viver.
E isso ninguém tira da gente.
Nem o tempo.
Nem a distância.
Nem todo o dinheiro do mundo.
Obrigada por ler minhas cartas. Conta para mim, qual é a terrinha do seu coração? Quais as pessoas que te fazem sentir em casa? Vou adorar ouvir sua história!
Semana que vem eu te espero para mais uma Carta!
Com amor e o coração quentinho,
Luana
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