Entre febres, oportunidades perdidas e abraços que salvam o dia, descobri que a maternidade é feita de sombras que pesam e de sóis que iluminam qualquer escuridão e, de forma mágica, fazem tudo reluzir outra vez.
A noite tinha sido difícil.
Cauã ardia em febre e molhou toda a roupa de cama de suor. Maya, para completar o enredo, começou a me chamar: “Mãe, minha gengiva está doendo muito“ e um rio de lágrimas correu de seus olhos. A dentista já tinha avisado que havia um dente nascendo onde simplesmente não cabia mais nada e que isso poderia gerar dor na pequena.
Mas, uma coisa é saber. Outra é ver sua filha acordar chorando de dor no meio da madrugada.
Demos remedinho, oração, beijinho e carinho. Finalmente, consegui fazer minha pequena adormecer, abraçadinha em mim.
Só tinha um problema: eu não conseguia mais dormir.
Era madrugada e eu estava preocupada em perder o horário. Tinha um treinamento presencial no Tribunal naquela manhã. E eu não podia me atrasar, afinal, combinei de ir de carona com a Janaína.
E, cá entre nós: a ideia de ir com a Jana não era a carona. Era o papo.
Sabe aquele encontro que a maternidade e a vida corrida vivem sabotando? Era o plano perfeito para que nós, duas amigas, duas mães, apaixonadas por batom vermelho e livros, conseguíssemos reconstruir o raro momento de conversar sobre filosofia, música boa, estudos, cultura, viagens e, claro, as mais diversas teorias.
Sabe aquele papo “cabeça” que muitos só alcançam com ajuda psicotrópica? A gente não. Para mim e para Jana aquilo sempre foi o nosso normal.
Jana e eu somos daquela raça de gente “diferente” (para não dizer estranha) que fez dois mestrados em Direito e ainda planeja um doutorado. Graças a Deus, hoje, (tomamos juízo) e entendemos que é preciso esperar um pouco até as crianças crescerem.
Mas, quando paro para pensar, percebo: eu e Jana estamos sempre puxando uma à outra. Entrei no mestrado. Puxei a Jana para dentro. Ela fez o segundo mestrado na Holanda. Eu fui para os Estados Unidos. Somos assim: uma apoia a outra. Uma chama a outra para o próximo nível.
Na véspera, ela tinha me contado que Angélica estava ardendo em febre com Pé, Mão e Boca. Eu contei da dor no dente da Maya e da febre do Cauã.
É curioso como, antes da maternidade, a gente conversava sobre estudos. Depois da maternidade, continuamos conversando sobre estudos, mas na verdade falamos principalmente da vida acontecendo no colo, no abraço, na rotina viva das nossas vidas.
No carro, o trânsito seguia parado. Em determinado momento, Jana disse: “Poxa, eu deveria ter saído mais cedo. Não consegui porque Pedro acordou e me segurou”. Eu respondi: “natural, coisas de mãe”. E rimos da obviedade.
Foi então que eu disse: “Jana, nós mulheres precisamos entender que somos AM e DM. Antes da Maternidade e Depois da Maternidade.”
Depois que você vira mãe, todos os seus planos têm prazo de validade de cinco minutos e grau de eficácia duvidoso. Basta cair, chorar, tropeçar, tossir, a febre surgir e pronto: tudo muda de lugar e a gente precisa se ajustar.
E está tudo bem.
O problema não é a mudança. É a régua que usamos em nós mesmas. A régua de quem éramos antes dos filhos.
Antes, a gente acordava, se arrumava impecável, cabelo alinhado, roupa passada. Depois, a prioridade vira garantir que as crianças estejam bem. E o que sobra — se sobrar — é nosso.
A maior crueldade que nós, mulheres, fazemos é medir nossos esforços, vida e resultados com a régua de quando não tínhamos filhos. É absolutamente cruel exigir de nós o que exigíamos quando vivíamos o nosso “AM”.
Chegamos ao Tribunal. Cumprimentamos os colegas. E, como de costume, sentamos na primeira fileira. Eu tentava desesperadamente vencer o cansaço. Anotava tudo para me manter presente e não ser tomada pelo sono.
Até que decidi buscar reforço: um café. Cremosinho, cheiroso, salvador.
Na exata hora em que levei o copo à boca, o telefone tocou. Era o Thiago.
Ele disse: “Luana, você não sabe o que aconteceu. A Maya acordou e está com o rosto inteiro inchado. Estou levando ela agora para o hospital.”
Um trem-bala passou por cima de mim.
AM/DM.
Treinamento? Anulado. Risadas, colegas, almoço com Jana? Suspensos. Planos? Desapareceram.
A função mãe ativou o alerta.
Corri por dentista, por pediatra, por ajuda. Graças a Deus, conseguimos atendimento imediato.
Quando vi minha filha, o rosto inchado, a boca roxa, um verdadeiro bico, pensei: “Meu Deus. Obrigada porque eu posso estar aqui para cuidar dela.”
No final das contas, nenhum treinamento, reunião, curso, evento ou plano vale mais do que isso.
E é aqui que entra a parte mais bonita e mais realística da maternidade:
Não fomos preparadas para virar mãe. Não sabemos, de verdade, como fazer. Andamos divididas, em múltiplas tarefas, sempre necessárias, e carregando milhões de culpas como uma sombra de nós mesmas.
Lembro de um dia em que precisei recusar um convite para palestrar em um evento nacional porque meu filho não estava bem o suficiente para eu viajar. Lembro que estava no caminho para a pediatra quando recebi, no grupo, as fotos deles no evento que eu havia perdido. Sem perceber, falei:
“Perdi. Eu também deveria estar lá.”
Senti um aperto peito e a voz embargar. Engoli seco.
Será que vou perder mais uma oportunidade? Será que pareço menos comprometida? Será que terei outra chance como essa?
Então, algo me chamou a atenção, olhei pelo retrovisor e vi meu filho dormindo no banco de trás, finalmente sem febre, e pensei: como posso me culpar por isso?
A culpa por trabalhar demais. A culpa por trabalhar de menos. A culpa por não estar com o filho. A culpa por estar com o filho e não produzir. A culpa pelo tempo passando depressa demais e eles crescerem rápido demais. A culpa por não ser quem éramos antes dos filhos.
No entanto, essa culpa, essa régua, está errada.
Não é assim que a vida funciona.
Você não é mãe apartada de seu lado profissional. Você é uma mãe que trabalha. Uma mãe que existe como mulher. Uma mulher que existe como mãe.
E nada disso se separa como caixas isoladas. Tudo isso somos nós.
Equilíbrio não nasce de dividir-se. Equilíbrio nasce de aceitar-se inteira.
Inclusive, aceitar que seus planos podem ser frustrados. Que o mundo pode não te acolher por priorizar seus filhos. Mas este mundo não pode definir quem você é. E, principalmente, este mundo não pode ser você.
Você precisa se aceitar, ser paciente e entender a dinâmica do seu “DM”, que é diferente do seu “AM”.
Organize seu tempo. Não fuja de suas facetas necessárias. Não se cobre perfeição, no trabalho ou com os filhos. Dê o seu melhor dentro das suas circunstâncias DM. Sem abrir mão dos seus valores. Sem abrir mão dos seus filhos.
No tempo do trabalho: trabalhe. No tempo dos filhos: esteja presente. No tempo de você: cuide de você.
Isso é sabedoria.
Os trabalhos vão e vêm. Os filhos, não. E uma mãe inteira vale muito mais do que uma mãe exaurida tentando ser quem já não é ou tentando manter um nível incompatível com seu momento DM.
Voltando ao consultório, quando a médica disse que a Maya estava parecendo um Fofão, minha menininha me olhou assustada e perguntou: “Mãe, estou feia?” Eu respondi: “você é sempre linda, meu amor.”
Ela sorriu. E me abraçou. E eu pensei: ainda bem que eu estou aqui para ser o abraço que ressignifica o mundo dela.
E ali, naquele abraço, entendi: a maternidade tem sua sombra: a culpa, o cansaço, a renúncia. Mas tem também o seu sol. Aquele que brilha por dentro, envolve, renova e ressignifica qualquer tempestade como o sol fresquinho da manhã.
O café esfriou. O treinamento seguiu sem mim. A conversa filosófica com a Jana ficou para depois.
Mas minha filha voltou para casa medicada, cuidada, segura.
E, sinceramente, isso é tudo. Afinal, no DM, eles são a nossa prioridade e o nosso tudo em qualquer situação.
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Obrigada por ler minhas cartas e caminhar comigo nessas reflexões tão humanas!
Amanhã, 28/11, é meu aniversário. Quero não só comemorar mais um ano de vida, mas, acima de tudo, celebrar a alegria de viver intensamente a maternidade enquanto compartilho minhas histórias, tropeços e aventuras reais com você!
Na próxima quarta, a gente se encontra em mais uma carta!
Ah, posso te pedir uma coisa? Envie essa carta para mulheres que precisam ouvir essa mensagem? Gratidão por isso!
Bem, agora me despeço, mas deixo um espaço para você compartilhar a sua história comigo também!
Fica bem.
Com amor,
Luana
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