Levantei e corri o mais rápido que pude. Me joguei no chão da pista onde meu filho tinha acabado de cair.
Toquei seu rostinho de porcelana suado e vermelho e falei ao encontrar os olhos do dono do meu coração:
_Filho. Estou aqui. Está tudo bem?
Peguei ele no colo. Ele olhou para mim. Então senti. Ele estava bem.
Enlacei meu pequeno entre meus braços.
Graças a Deus.
_Foi só um susto, filho.
Aquele abraço quentinho abriu uma passagem dentro de mim.
E foi como se o barulho das rodinhas na pista desaparecesse por um instante.
Voltei para algumas horas antes.
Era uma tarde fresca de um sol claro de outono. Estacionei o carro em frente ao portão aberto. Desci do carro. Dei a volta para abrir a porta e poder segurar a mãozinha branquinha que não para de crescer. Entramos juntos.
Fomos recebidos com sorrisos e uma mesa do lado esquerdo com biscoitos e um cheirinho gostoso de café coado.
_Mamãe, vamos tomar um café?
_Bora, filho! Mas vamos conversar com as tias primeiro. Pode ser?
O pequeno balançou a cabeça concordando.
Enquanto caminhávamos de mãos dadas, a luz de uma figura sorridente iluminou o ambiente. Era a tia Arlene, a dona da escola das crianças.
Depois de nos receber com seu carinhoso abraço, tia Arlene falou:
_Que bom que vocês vieram. Luana, quando descer, eu quero mostrar uma coisa muito especial para você.
_Está bem, tia. Pode deixar.
Subi as escadas de mãos dadas com o meu menino. Depois de uma conversa acolhedora com as maravilhosas tias Karla e Karina, desci buscando com os olhos a querida tia Arlene.
Perspicaz, tia Arlene nos viu primeiro e nos buscou as mãos.
_Vem cá que eu quero que você veja isso!
Tia Arlene colocou a mão sobre meus ombros e nos levou até um canto da escola onde havia um espelho.
Em volta dele, algumas frases pareciam esperar por quem tivesse coragem de olhar para si.
Antes que eu lesse as frases em torno do espelho, a voz do Cauã me tirou da memória e me trouxe de volta para a pista de patins.
Mãe, machuquei. Está doendo muito.
Calma, filho. Mamãe está aqui.
_Mãe, não tenho forças. Estou com medo. Não quero mais andar de patins.
_Filho, eu te entendo. Dói mesmo. Mamãe tomou o maior tombão também, você viu?
_Eu subi a rampa, mas na hora de descer, eu perdi o equilíbrio, torci o joelho feio e caí igual uma abóbora podre no chão. Está doendo até agora.
_Mamãe, doeu para caramba, foi?
_Pra caramba, Cauã.
_Tadinha... Mãe, tô com muito medo.
_Filho, mas a gente não pode deixar o medo dominar. Você caiu da rampa. Mamãe caiu também. Papai, Maya, todo mundo caiu. Agora vamos juntos descer. A gente é forte. A gente vai descer essa rampa, Cauã. Entendeu?
_ Entendi, mãe.
_Então, levanta para a gente descer, filho. Vem!
Falei o ajudando a levantar.
_A gente ganha do medo, não é, mamãe?
_ Isso, filho. A gente vence!
Saímos patinando juntos rumo às rampas, eu com o joelho torcido, meio solto e ele com os dedos e pernas ralados.
Eu subia na rampa e pensava: que loucura é essa que estou fazendo?! Ao mesmo tempo eu falava: que força estranha essa que me fez sair do banco e estar aqui em pé outra vez?!
Antes que encarasse o desafio que me pôs no chão, lembrei novamente da memória de mais cedo, em que Cauã e eu estávamos ao lado da tia Arlene, na escola das crianças.
Ouvi a voz da tia Arlene:
_Agora, se veja!
Então, me vi em frente a um espelho. No reflexo via a mim e também meu filho, que me abraçava ao lado enquanto tia Arlene dizia:
_Seus filhos refletem todo o seu amor, toda a sua coragem e a sua dedicação para que eles sejam esses amores de crianças. Nós ensinamos não pelo que falamos mas pelas nossas atitudes. E nós vemos o quanto vocês dão o melhor que podem por eles!
Enquanto eu patinava com o joelho torcido rumo à rampa que há pouco tinha me colocado ao chão, eu falava para mim:
_Lembra do espelho, Luana! Eu preciso ser forte e ter coragem para dar exemplo para eles.
Na verdade, voltei a andar de patins para estimular os meus filhos. Não que eu faça isso com muita habilidade, diga-se de passagem. Risos.
Porque eu não ensino coragem falando.
Não ensino força com discurso vazio.
Eu ensino fazendo.
O joelho falhava. Mal conseguia patinar. E eu pensava:
Será que rompi o ligamento colateral medial?
Lesionei o menisco?
Ferrei os dois?
Putz. O que eu estou fazendo aqui, Jesus?
E se eu cair de novo, me estrebuchar no chão?
Só de pensar doía!
Antes que a minha cabeça trouxesse mais das piores imagens diagnósticas possíveis, uma imagem se acendeu no caminho.
Ao olhar para frente, vi um garotinho de capacete azul, todo sujo, ralado com olhos inchados de choro e dor. Eu precisava ser forte e corajosa para ele, por ele.
Então, fui até ele. Apertei sua mãozinha com sangue ainda molhado.
Enchi o peito de ar.
Segurei o joelho frouxo como se junto segurasse o meu próprio medo.
Apertei os punhos.
Falei com firmeza:
_É agora Cauã! Mamãe vai lá!
Com coração em disparada patinei até ganhar velocidade.
Subi até o topo. Posicionei os pés e, finalmente, desci até o final.
Ufa!!
Do outro lado, gritei:
_Cauã!! Consegui!!! Agora é a sua vez filho!
E ele subiu e desceu sozinho, sem hesitar.
E eu comemorei:
_Uhuuu!!! Você conseguiu!!!! Você conseguiu, Cauã!! Você foi muito forte, filho!! Isso aí!!!!
Cauã arqueou os lábios em um sorriso puro, de orelha a orelha. Ele gargalhava feliz, aliviado!
_Consegui, mãe!
Depois eu e ele descemos e subimos outras muitas vezes as rampas.
Depois de muito patinar, eu patinava para o carro. O chão trepidando de fora da pista me mostrava o quanto meu joelho estava solto.
Eu ia devagar e Cauã saiu na frente, passando por obstáculos com tranquilidade, com domínio.
Ao ver a autonomia do meu menino, suspirei sorrindo.
Então, lembrei do espelho e das palavras da tia Arlene. Que bicho estranho e forte a gente vira quando se torna mãe dessas figurinhas? Se isso me acontecesse antes das crianças, eu estaria chorando, preocupadíssima, a caminho do hospital.
Ao contrário do pequeno, cada metro até o carro parecia mais longo. O joelho travava no chão irregular. E, finalmente, ao me sentar no banco e tentar colocar o pé para dentro, tomei consciência do tamanho do problema. Não conseguia dobrar o joelho. Parecia que o joelho tinha perdido a força.
Ferrou!
Mas, antes que eu me perdesse no medo e no desespero de algo pior ter acontecido, senti um toque no meu ombro. Ao olhar, vi o dono da mãozinha animado no banco de trás. Vi um branquelo fofinho suado, que logo falou sorrindo:
_Mamãe podemos voltar aqui amanhã para patinar de novo?
_Claro, filho
Ri e agradeci.
Graças a Deus.
A gente acha que faz muito pelos filhos.
Mas, no fundo, eles fazem muito mais pela gente.
Eles arrancam de dentro de nós uma coragem que provavelmente nunca existiria se não fosse por todo esse amor.
A dor passou. A dificuldade perdeu espaço.
Olhei para o banco de trás, vi meus dois pequeninos de rostinho de porcelana animados e falei:
— Mas, antes, vamos passar para buscar um açaí para a gente comer depois do jantar. Combinado?
— Oba!
Comemoraram os meus dois amores.
E eu, ali, naquela noite, com o joelho torcido, agradeci.
Porque, naquele dia, fui eu que levei meus filhos para aprender a patinar.
Mas foram eles que me ensinaram a ser alguém melhor.
Foram eles que me ensinaram a olhar para mim e reconhecer em mim a mulher que o amor forjou.
Obrigada por chegar até aqui. Espero que esta carta tenha te ajudado a ver o quanto você evoluiu, superou e supera.
Que Deus abençoe você, seus amores e sua família hoje e sempre.
Se fizer sentido, envia esta carta para alguém que está fazendo um belo trabalho como mãe, pai, avó ou avô. Alguém
que cuida dos grandes e pequenos com todo amor.
Eu te encontro na nossa próxima carta.
Com amor,
Luana
Mais uma carta maravilhosa que nos faz refletir a força potente da maternidade em nossas vidas. Eu acho que quando a Tia Arlene te propôs se olhar no espelho, ela só queria que você enxergasse um pouco do que ela vê em você . Uma mulher forte, uma mãe guerreira e comprometida com sucessos dos filhos. Talvez por isso você tenha chegado á conclusão de que os seus filhos te tornaram uma pessoa melhor. A maternidade faz isso conosco. Me sinto infinitamente melhor depois do Artur. O que mais me chamou atenção na carta foi perceber que um acontecimento simples do dia a dia, dentro do colégio ápice ( quem conhece sabe) deixou essa marca tão profunda em você - e nos seus leitores agora. Um grande beijo minha querida. Gratidão por essa carta tão linda❤️
boa mãe mas o pobre do cauã ficou parecendo ser mais novo mas eu amei eu dei comentario também na "não me deixe esquecer a vida" e o resto do nome esqueci hihihihi cadê a parte que você está sendo a "mancona" da casa ainda melhorando da dor kakakaka brncadeira mãe a carta ficou perfeita te amo mais que tudo hoje é 4 de junho